Opinião

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

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O Verão mal começou, mas o racismo do Estado em praias cariocas estava a todo vapor. O calor dominava as ruas da Cidade Maravilhosa e o que a molecada faz para amenizar as temperaturas? Desce do morro à procura do lazer, afinal, a praia é pública e não são só os moradores locais e turistas que podem se divertir nela.

Ao chegar pela orla do Arpoador, em Ipanema, era possível notar diversas viaturas policiais, além de uma base de operações especiais. Além da PM, a mídia também chegou antes de ter ocorrido qualquer delito. A Rede Globo e o Jornal Meia Hora estavam a postos, pior do que urubu na carniça, só esperando mais um rosto para ser notícia nos jornalões e telejornais.

Fato consumado: a molecada chegada e a polícia cercava. Jovens de várias idades (dos 7 aos 20 anos), todos eram cercados. Até o momento em que um dos policiais resolve sair correndo atrás de um deles. Chutavam, batiam, gritavam, davam tapa na cara dos moleques. Era perceptível a vontade de prender qualquer um daqueles garotos só para que a imprensa que estava no local pudesse noticiar mais um ‘crime’ e o Estado se aproveitar da situação para dizer que estava fazendo o seu (des) serviço. Até que conseguiram prender dois garotos, que ao mesmo tempo em que eram imobilizados pelo calçadão falavam com os PMs: “Qual é? Pega leve!”, tendo os braços imobilizados para traz.

A galera, maioria banhistas que estavam na praia, que presenciava a cena não se deixou abater. Iam correndo atrás dos garotos e do batalhão de policiais que cercavam os jovens presos gritando para as câmeras da Rede Globo “pode filmar, filma mesmo, pode filmar a gente”, entendível para quem acompanha as cenas de revolta popular nas periferias, não só do Rio, mas de todo o Brasil. A revolta popular ocorre após a repressão do Estado atingir alguém que é só mais uma vítima desse próprio Estado. E quando um jovem que desce do morro para ir à praia e é detido sem motivo, o seu povo não o deixa de lado.

No mesmo momento, algumas pessoas saíam da praia assustadas pelo corre-corre iniciado pelos policiais. E alguns turistas europeus riam do que estava acontecendo.

Nota-se que as prisões ocorridas na praia do Arpoador na tarde de domingo (19/10) não passou de mais uma cena de racismo do Estado, que alimenta o medo da população e o preconceito, já que apenas os jovens com a cor de pele preta eram perseguidos.

E desse triste episódio ocorrido em uma tarde que poderia ser uma dia feliz na praia de um dos mais lindos cartões postais do mundo, nota-se: O Estado é sim o causador do racismo entre as classes. E se a polícia prende e agride na frente de tudo e de todos, imagina o que não faz nos becos e vielas?

Foto: Olhar Independente feita no Leblon na mesma tarde (19/10)

 

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