Cultura e Resistência

Teatro combativo anti-hegemônico

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Movimentos e grupos teatrais traçam paralelos da atual cena artística de São Paulo e descrevem as dificuldades de se produzir artes cênicas em um país “soterrado” pela indústria cultural.

POMBAS URBANAS

Apesar das dificuldades para se montar espetáculos no Brasil, a criatividade e a união tem feito diferença na cena teatral de São Paulo, grupos, coletivos e companhias se espalham na tentativa de semear projetos. De acordo com o diretor de teatro de um dos mais representativos grupos da cena alternativa da cidade, o MOTIN (Movimentos de Teatros Independentes de São Paulo), Bernardo Galegale, 31 anos, nadar contra a maré é obrigatoriamente uma constante neste mercado.

“Produz-se muitos espetáculos independentes na cidade, inclusive sem patrocínios. Fazer teatro independente é um movimento de resistência e militância pela cultura. No entanto, e aí entra um grande desafio também, o teatro é feito para o público, melhorar nossa comunicação com o público é um dos objetivos do MOTIN e colocar em prática ações independentes que fortaleçam essa relação é um ato criativo que pode clarear nossa identidade perante nossos espectadores”, relata ele.

Em meio a uma cena que pouco ou nada recebe incentivos da figura do Estado, coletivos como o MOTIN se apoiam na unidade de seu ideal para se manter atuais e alavancar mais propostas e grupos semelhantes e diferentes. Segundo, Galegale, o trunfo do teatro independente está no fato de diversas linguagens se correlacionarem.

“De certa forma, o que embasa a existência do MOTIN é a consciência e valorização das diferenças entre cada teatro, entre suas estéticas e posicionamentos políticos. É a diferença que nos une. E essa união entre os teatros é um fator inédito na classe e que pode abrir muitas portas, além de melhorar nossa autoestima. Outro princípio norteador das ações do MOTIN é a recusa da ideia do “pires na mão” – a aparente necessidade do poder público para atuarmos e existirmos. Talvez, a subversão do sistema seja uma resposta óbvia as perguntas que rodeiam os teatros: fortalecer nossa relação com o público, pois é dele que precisamos e para ele que existimos”, declarou.

CARTOGRAFIA DO TEATRO EM SÃO PAULO

Um estudo capitaneado pelo próprio MOTIN encabeçou uma pesquisa que determinou a cartografia do teatro paulistano, segundo os dados, existem 69 salas de espetáculos na cidade, sendo que 43 são independentes, ou seja, não possuem vinculo com empresas privadas ou qualquer instâncias do governo, 18 são públicos, estão situados em lugares como CEUs e Fábricas de Cultura e 8 que são financiados por empresas ou marcas capitalistas. O que é um número ínfimo quando se fala de uma cidade do tamanho de São Paulo.

TEATRO CONTRA O SISTEMA

O grupo Pombas Urbanas, formado pelo diretor peruano Lino Rojas (1942-2005) na Oficina de Cultura Luiz Gonzaga, está na ativa desde o ano de 1988. Teve seu início de atividades no bairro de São Miguel Paulista e há 12 se concentra na Cidade Tiradentes, famoso bairro da Zona Leste da capital.

POMBAS URBANAS 2

O grupo se compromete com a arte e a formação de um público que entenda e se desenvolva por meio das artes cênicas libertando-se das malhas da mídia televisiva tão influentes no Brasil, principalmente sobre as camadas mais pobres da população. Atuam na raiz da periferia, local onde existem menos oportunidades culturais desse tipo.

A tarefa de combater o discurso das “celebridades” com o teatro alternativo é uma tarefa difícil em países subdesenvolvidos onde a maioria não recebe informação por outros meios senão a TV, entretanto, a equipe do “Pombas” busca em sua experiência de mais de vinte anos a razão para continuar a acreditar em sua proposta.

“De certa forma, a televisão ocupa um espaço na vida da população criando uma ilusão de que ‘ser artista’ relaciona-se com o status de celebridade, esvaziando a compreensão do conceito de Arte, que para nós do grupo é um conceito de grande profundidade. A Arte pode e deve fazer parte do dia-dia das pessoas, como um espaço de encontro, reflexão, conhecimento, festa, de interação e vida comunitária”, ressaltam os diversos componentes que responderam as perguntas de maneira colaborativa à Megafonia.

Ações da esfera pública também têm proporcionado avanços para a cena cultural voltada ao teatro, casos como o de alguns programas que oferecem oportunidade para florescer novos talentos. “Nos últimos anos, políticas públicas como o VAI, Fomento ao Teatro, Pontos de Cultura entre outras potencializaram muito as ações de coletivos culturais da cidade, aumentando visivelmente a produção e fazendo com que a mesma tenha uma maior capilaridade, movimentando a cena cultural em bairros da periferia da cidade, o que antes ficava extremamente restrito ao centro”, enalteceu o grupo.

DESENCANTOS E CULTURA DE MASSA

Contudo, o jovem Sidney Rodrigues, 24, estudante de teatro na cidade de Santana do Parnaíba, na companhia de investigação teatral “Parnaíba EnCena”, não é tão otimista em relação às novas ações que têm proporcionado mais espaço para o teatro e atingido públicos maiores. Ele não vê com bons olhos a moda do “Stand Up” no Brasil.

“O cenário teatral hoje em dia infelizmente esta em decadência, o Teatro tradicional luta contra a procura do público por espetáculos e apresentações de comédia e principalmente Stand Up. Já o teatro alternativo sempre foi uma tendência, menos valorizada, pois muitas vezes, os projetos não duram muito tempo por conta da falta de público e principalmente pela falta de insistência dos idealizadores e criadores das montagens do gênero”, desabafa ele.

Alternativas e possibilidades são inúmeras, assim como a iniciativa do MOTIN de mapear a quantidade de teatros na cidade de São Paulo, oficinas teatrais que levam a arte às periferias, o combate contra a indústria cultural da TV e das modas que minam o sentido estético, criativo e crítico do público, a saída deve continuar sendo a militância em prol do fim da desigualdade social e das corporações que monopolizam o entretenimento e o lazer. A saída deve se dar por meio do empoderamento da arte e da ocupação dos espaços públicos contra a obsolescência da indústria cultural.

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