Cultura e Resistência

Sistema de som

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Uma revolução jamaicana que vem fortalecendo a cena musical underground de SP                                                                                                                           

“Uô, uô, uô, somos independentes”. Assim cantava o músico jamaicano Derrick Morgan, na música Forward March, em 1962, após a ilha conquistar sua independência regada ao som do ska, primeiro ritmo legitimamente jamaicano que foi a trilha sonora daquele momento. A Jamaica havia passado por 300 anos sob domínio britânico. Mas se engana quem acha que a independência da ilha caribenha inspirou a criação do ska, a música veio antes, na década de 1950, na periferia de Kingston através do sound system, uma cultura que até hoje é o coração da música jamaicana e maior divulgador de seu filho mais conhecido, o reggae.

O sound system é basicamente um sistema de som, normalmente com caixas acústicas enormes comandadas por DJs que tocam uma seleção de músicas e na maioria das vezes adicionam efeitos sonoros e técnicas ao som.  Principalmente nos dias de hoje um sound system também conta com um MC (mestre de cerimônias) que improvisa versos enquanto os discos são tocados.

Há muita discussão sobre o surgimento da cultura sound system, alguns dizem que foi na década de 1950, já outros, acreditam que surgiu na década de 1940. O mais importante é que tudo começou com uma versão jamaicana do R&B (Rhythm and blues) americano, único estilo musical que chegava nas rádios dos Estados Unidos  na época.

Nos anos 1940, o custo para as apresentações das orquestras nos bailes de Kingston (capital da ilha) era muito alto para os produtores, tendo como  principal motivo o grande consumo de comida e bebida dos músicos, o que aumentava o valor para se produzir as festas.

Por conta deste problema econômico, os produtores resolveram custear um sistema de som com um DJ apenas, para poder vender seus comes e bebes sem a interferência estomacal dos músicos. A proposta foi muito bem aceita e se mostrou viável ao cenário econômico que aqueles jamaicanos viviam na época.

No final da década de 1950, alguns estúdios como Studio One, Treasure Isle e Trojan, já estavam produzindo diversos artistas que vinham fazendo sucesso com o ska nos bailes sound system. O R&B recebeu um toque caribenho e africano quando chegou na Jamaica, essa mistura criou o ska, que reinou durante anos não só a Jamaica como no Reino Unido e restante da Europa. O estilo foi o início de uma contribuição importantíssima da ilha, influenciando a cultura pop inglesa e européia, além de movimentos, como os mob’s e skinheads (na época, sem influência do neo-nazismo).

O ska também influenciou os rude boys nas periferias jamaicanas, eles eram jovens à margem da sociedade, cansados de não ver prosperidade após a independência do país. Por fazerem parte de gangues, os rude boys obrigavam os DJs a diminuir a rotação dos discos, deixando mais lenta as músicas que eram tocadas, isso era tratado como uma forma de protesto contra a hipocrisia criada na política do país e que não aparecia no alegre ritmo do ska e nas danças levadas por ele.

No início os sound systems eram compostos por amplificadores com potências moderadas, apenas para atender aquele público da festa, mas conforme o  aperfeiçoamento da cena eles ficaram mais sofisticados, chegando a ser ouvidos em outros quarteirões, aspecto que deu ainda mais fama ao movimento que crescia rapidamente nos subúrbios de Kingston. Dentro do ramo, dois produtores se destacaram: Clement Coxsone Dodd e Arthur “Duke” Reid. Ambos construíram um público fiel ao sound system, unindo o negócio de bebidas às festas. A disputa entre os dois foi tão grande que trouxe muitas brigas aos bailes e até casos de morte. O sound system tem uma importância histórica na música, desde o desenvolvimento de DJs até o nascimento dos primeiros MCs, que alguns anos depois seriam o principal pilar do hip hop. Um deles foi Winston Cooper, conhecido como Count Machuki, um percussor dos rappers de hoje.

Com a chegada dos Rude Boys e a influência crescente da música jamaicana na música pop europeia foram o gatilho para o início do boom de vertentes que a música jamaicana criou a partir do ska, como o rockstead, reggae, dub, enfim uma cena que foi disseminada pelo ícone Bob Marley, um dos únicos músicos que viveu todos os momentos da música jamaicana. Nos dias de hoje a cultura sound system continua viva e vem ganhando ainda mais espaço, principalmente aqui no Brasil.

Em terras tupiniquins a cena sound system demorou um pouco para ganhar seu público, dos anos 1990 até o início do ano 2000 o DUB – nome dado a um estilo vindo do sound system, que mesclou o reggae a interações eletrônicas musicais cheias de efeitos com destaque para a linha do baixo. O Maranhão foi o primeiro estado brasileiro a lançar sua própria cultura sound system, o nome dado ao sistema de som era radiola e a essência era a mesma dos jamaicanos, aliás, a ilha caribenha e o estado brasileiro são muito próximos nos quesitos política, desigualdade e pobreza.

“Não tinha ninguém que produzia algo parecido, se tinha, não assinavam como DUB, se você ouvir Nação Zumbi, Planet Hemp nos discos antigos havia influência e até músicas com o mesmo sentido, mas não assinavam como DUB. Nos últimos anos o processo tem sido natural, assim como o crescimento do hip hop, tá acontecendo a mesma coisa, começam a surgir  festas, os DJs, MCs, surgem as produções próprias. Mas aqui rolou a necessidade de saírem músicas com uma cara mais brasileira, um reggae nesse seguimento, com jeito brasileiro, e não só produzir algo com cara de inglês, jamaicano ou europeu”, explica Rodrigo Alves Becker, conhecido como Kas, produtor do Kas Dub Sound System, um dos sistemas de som mais conhecidos de São Paulo.

Kas toca seu trabalho ao lado do MC Little Car, que veio do rap e encontrou no DUB algo bem próximo do que já fazia. “Eu já fazia um rap, (na apresentação) eu improviso e também tenho minhas letras decoradas, mas a maior parte é improviso, na Jamaica os caras gostavam de fazer isso, cantar o que estavam vivendo.

Além da dupla que veio da zona leste, outros sistemas de som estão ajudando a disseminar a cultura sound system por todo o país. Entre os mais conhecidos, além do Kas Dub, estão Buguinha Dub, Dubalizer, Dubatak, Dubversão, Yellow P, estes artistas e outros coletivos estão espalhando a cultura sound system pelo Brasil. “É só continuar fazendo. Hoje em dia tem festa que você consegue colocar 500 e 600 pessoas dentro, mas pra chegar a ter 4 mil vai demorar um tempo. Falta apoio, como por exemplo, ajuda dos meios de comunicação de massa”, diz Kas.

Na música de Derrick Morgan, citada no início da matéria, cantar para o mundo todo de que a partir daquele momento eram independentes, ilustra o que a cultura sound system vem fazendo ao atravessar décadas, não só em relação à música, mas na luta por aquilo que veio do povo e ainda é feito por ele, sem influência política. “A política está presente na nossa música através da nossa visão, sobre a realidade, leis, regras, não temos bandeira nenhuma, nossa bandeira é a do reggae, do sound system”, conclui Kas.

CONFIRA A ENTREVISTA COM KAS DUB SOUND SYSTEM E LITTLE CAR:

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