Cultura e Resistência

Rio Parada Funk foi resistência

Compartilhe isso:
Do vinil ao MPC, festival trouxe o grave dos paredões para o Aterro do Flamengo e foi exemplo de resistência popular contra o preconceito musical e social através de muito funk.

2016-06-28

Ainda com zumbido nos ouvidos nossa memória do que vimos no festival Rio Parada Funk não se apaga, pois o que se produziu no Aterro do Flamengo em uma fila inacabável de paredões de som foi inesquecível para todos que chegaram junto no baile. A harmonia entre o grave das caixas e o passinho na pista se misturavam às letras dos funks das antigas com os atuais, a cada passo um paredão lançava as ondas sonoras contra o corpo de quem estivesse na frente.

Sem polícia por perto o clima era ainda melhor, pois os canas assistiam bem de longe. A violência cotidiana praticada pelo Estado contra o morador  da periferia carioca, mesmo que por um momento, não era realidade. A celebração de um movimento que há décadas alegra o morro  era a única preocupação do público. Sem treta, só alegria e beijo na boca.

A criançada correndo por todos os cantos e a velha guarda arriscando uns passinhos, dedinho pro alto e muito talento [email protected] MC’s e Dj’s que comandaram o som, davam o toque final à cena. Até “Fora Temer” rolou.

Fica registrado nosso repúdio ao artigo escrito no jornal O Globo, do deputado estadual, Milton Rangel (DEM), com o título “Cultura da futilidade”, onde o engravatado diz absurdos e demonstra um enorme analfabetismo sobre o rítmo e suas vertentes. Principalmente ao ligar o movimento funkeiro à cultura do estupro, como se em outros tipos de música não houvessem resquícios de uma sociedade machista que ele mesmo ajuda a perpetuar em sua posição. O político vai ainda mais longe e liga o triste caso de estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro com o funk, só por que o fato ocorreu após um baile.

Frases como, “funk não é cultura de favela, é cultura de bandido”, “defender o funk é defender que o morador da favela continue refém do tráfico” e “funk não é cultura”, demonstram a falta de conhecimento sobre a rica variedade de conteúdo, expressão e movimento de uma realidade (que não é a dele) traduzida em rítmo funk, independente das divergências sociais que isso possa reproduzir. Afinal, a música espelha aquilo que vivemos da forma mais pura e se não estamos enganados ou morando em outro planeta, vivemos em uma sociedade autoritária, meritocrata, sexista e repressora em todos os aspectos sociais, ou seja, se o funk é tão limitado como Rangel expõe, talvez seu artigo seja o retrato do asfalto, expondo o preconceito do Estado que ele como um político representa.

Com o samba foi assim, sabemos disso. Uma cultura que venha do povo, feita pelo povo, sempre será uma afronta aos poderosos. Que reuniões culturais, gratuitas e públicas assim continuem acontecendo, com menos intervenção do Estado, da mídia corporativista e de empresas oportunistas. Mais autogestão para o povo e seu próprio entretenimento.

Confere aí um rápido compilado em vídeo que produzimos da edição 2016 do Rio Parada Funk:

Compartilhe isso:

Comente

Comentários

Powered by Facebook Comments

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.