Cultura e Resistência

Poesia e xilogravura, literatura de cordel atravessa séculos contando cultura

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É fim do século XIX quando no nordeste brasileiro um novo formato de narrativa impressa era pendurado em cordas e exposto nas ruas. Livretos repletos de relatos orais impressos na companhia de xilogravuras começam então a ser parte da paisagem urbana e rural nordestina, deste movimento nasce uma poética totalmente particular que já existia na boca do povo e que agora era compartilhada nos livretos através da literatura de cordel, nome dado a estes trampos.

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Xilogravura por Leonardo Silva. (foto: Sebá Neto)

O cordel é inspirado nos impressos que se popularizaram em Portugal durante o Renascimento, no século XVI, o nome vem da forma como estes livretos eram expostos, em cordas ou barbantes. Os cordelistas, como são conhecidos os autores de cordel, normalmente recitam seus poemas de uma forma rítmica e cadenciada, habitualmente em estrofes de seis, oito ou dez versos. O valor deste tipo de literatura começa principalmente por esse ponto, onde a expressão oral ou escrita são como um só movimento linguístico. Mas é bom ficar experto, para não levar bronca de um autor de cordel é preciso saber que há uma regra importante no que diz respeito à literatura cordelista nordestina, pois faz parte da tradição do gênero o uso de rimas consoantes, que se manifestam pela coincidência de fonemas, tendo em vista a última vogal tônica de cada verso, como por exemplo: fecundo e mundo; amigo e contigo; doce e fosse; pálido e válido; moita e afoita.

Caso sua opção ao começar a escrever um cordel seja através de rimas toantes, Aquelas em que só há identidade de sons nas vogais, a começar pelas vogais tônicas até a última letra ou fonema, por favor, um apelo deste repórter é que pare já. Rimas deste tipo não são consideradas na literatura de cordel, por isso já avisei que é bom ficar experto, pois há uma cultura de raiz forte envolvida na poética cordelista.

Entre os mais famosos cordelistas estão Leandro Gomes de Barros, que foi o mais importante autor da literatura de cordel brasileira, com destaque para o seu livreto “O Cachorro dos Mortos”, com mais de um milhão de exemplares vendidos. Entre outros grandes autores estão João Martins de Athayde, que inclusive comprou os direitos autorais de Gomes de Barros após sua morte. Foi um dos que mais produziu cordel no país.

A política e resistência popular como temática para estes poetas nunca passou batida em seus livretos, um exemplo disso são os textos de Cuíca de Santo Amaro, talvez o mais combativo cordelista que já tenha se registro. Amigo íntimo de Jorge Amado, fazia denúncias contra políticos e poderosos corruptos no Brasil, talvez uma figura bastante necessária na guerra de narrativas que vivemos hoje entre mídias independentes e mídia corporativista.

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Varal típico com cordeis (Foto: Sebá Neto)

Outro grande cordelista que merece ser lembrado é o pernambucano José Francisco Borges, de 80 anos, mais conhecido como J. Borges, além de cordelista é um artista que desde o início talhou suas próprias matrizes que transferem da madeira para o papel a xilogravura. Seu trabalho viajou o mundo sendo exposto em diversas galerias, como a Galeria Stähli, em Zurique, na Suíça, além de outras em países como Venezuela, México e Estados Unidos. Talvez o maior nome da xilogravura no Brasil, aclamado até mesmo pela lenda Ariano Suassuna  e  considerado Patrimônio Vivo de Pernambuco, suas matrizes originais podem ser apreciadas em um memorial dedicado ao artista, localizado em Bezerros – PE, sua cidade natal.

Atualmente a literatura de cordel segue viva e forte em todo o país, com diversos cordelistas espalhando sua poética por todos os cantos do Brasil e também do mundo. Para tentar entender um pouco mais sobre o tema e sobre o futuro desta narrativa nós fomos atrás de um destes grandes cordelistas, o também professor, Zé Lacerda. Você já deve ter visto algum cordel dele espalhado por alguma banca de jornal nos centros de São Paulo e Rio de Janeiro.

Tivemos uma boa conversa com ele para saber mais sobre o que esperar do futuro do cordel diante das novas tecnologias e conhecer  um pouco da sua opinião sobre as temáticas que envolvem a poesia cordelista, além disso ele nos deu uma boa aula de história e poesia.

Vale a pena conferir:

– O que te fez ter o gosto pela literatura de cordel?

Geralmente me chamam de Zé Lacerda, antes eu era mais conhecido como Professor Lacerda. Hoje, fora das salas de aula, o “Professor” caiu em desuso.  Eu escrevo desde criança, contos, pequenas histórias, sempre gostei de ler livros de poesias, talvez tenha surgido daí o interesse pela poesia. Comecei escrevendo por brincadeira, depois por hobby, e quando me vi fora das salas de aula, abracei definitivamente a poesia de Cordel, como terapia, como forma de estar novamente nas salas de aula, como estratégia para conhecer meu país do Oiapoque ao Chui, entre outras pretensões.

– O que você destaca como tema principal da sua narrativa?

Não sei se destaco alguma coisa, mas criei um lema para minhas poesias: A POESIA É O REMÉDIO DA ALMA. E realmente tem me servido muitas vezes como remédio. Fora isso, eu escrevo meus folhetos por séries. Comecei com a série ADIVINHAÇÕES, escrevendo adivinhações em versos com as respostas rimadas, me aprofundei nos estudos do Cangaço Nordestino e das Lendas pelo Brasil a fora, além de muitos problemas da democracia atual no Brasil.

– Sei que já produziu diversos folhetos de cordel, quantos foram? Como foi a distribuição e porque resolveu distribuir seu trabalho de forma expandida, ou seja, outros Estados e Capitais?

Atualmente tenho escrito 362 folhetos de cordel de minha autoria. Tenho expandido meus escritos de Roraima ao Paraná, cuja principal pretensão é difundir. a Literatura de Cordel fora do Nordeste, além de ter chance de entrar em Escolas pelo Brasil a fora, proferindo palestras, fazendo oficinas de xilogravura entre outras pretensões, conhecendo o Brasil e fazendo amigos por onde passo.

– Acha que faltam poetas com mais atitudes assim?

Não costumo criticar quem faz poesias, mas acho muito importante e estou sempre incentivando a criação de novos poemas. Infelizmente há quem goste de escrever coisas sem futuro, de baixo calão, mas não os critico, apenas sigo minha meta, que é escrever para qualquer criança ler e para que minha poesia seja mostrada em educandários.

– Como vê o cordel comparado com o que é produzido hoje na internet? O que pensa do futuro desta literatura diante do avanço tecnológico e dos formatos diversos que a cada dia modificam nossas narrativas e formas de absorver informação?

Hoje em dia poucos alunos aprendem a ler, graças a internet que não fala português, ao desinteresse de muitos, às restrições causadas pelo Sistema, inibindo o professor de ensinar como deveria, mas acho que a Literatura de Cordel, apesar da Internet, vai ter sempre um cantinho embora muito resumido na Cultura Brasileira .

– No sentido técnico, como define sua poética e o que acha da importância das regras que compõe as formas de se desenvolver a poesia escrita no cordel? EX: Quadra, sextilha, Quadrão…

A Literatura de Cordel é escrita em variadas formas, muitas delas criadas por um ou outro poeta, outras formas tradicionais. Geralmente segue o estilo criado pelo seu “Criador” no Brasil, o paraibano Leandro Gomes de Barros, mas cada poeta tem a sua peculiaridade. Eu mesmo tenho meu estilo próprio e dificilmente saio dele, que é a Redondilha Maior, ou seja, estrofes de sete versos (sete linhas), com rimas no 2º, 4º e 7º verso, e o 5º e 6º rimando entre si, além de escrever com “deixa” que é a próxima estrofe começando em rima com o último verso da última estrofe. (Ex. “Uns mentem por merecer Outros por necessidade…  Seja mentira ou verdade Seja soneto ou emenda…”)

– Vi na sua biografia, que descendente de holandeses, portugueses e índios, como você vê o tema da miscigenação sendo abordado na literatura de cordel da primeira geração de poetas e na segunda.

Sou descendente de Europeu com Indígena brasileiro de verdade. Quanto à geração de poetas, hoje os estilos são bem diferentes da poesia da Idade Média por exemplo, e eu tenho abordado esse assunto em alguns dos meus cordéis, a exemplo da série Cantadores, onde o volume 01, O FOLCLORE, A VIOLA, A CANTORIA, e o volume 07, BRAZ MACACÃO, O POETA APAIXONADO, enfocam bem mais a poética do passado. Também tenho alguns cordéis e poemas abordando o tema miscigenação, principalmente o estilo africano ou africanizado no Brasil, como já contei histórias de fundação de quilombos, do Quilombo dos Palmares, de Zumbi, de sua esposa Dandara, da Escrava Anastácia…

– Sabendo que a literatura de cordel que conhecemos hoje remete aos romances em folhetos do Renascimento europeu, se expandindo aqui no Brasil a partir do século XIX, o que podemos apontar como o fator principal da integração da narrativa do poeta nordestino na criação do cordel que temos hoje, apenas a popularização da impressão, ou há algo na narrativa que tenha facilitado o início deste movimento?

Desde o seu surgimento no Brasil, provinda de Portugal, a Literatura de Cordel ainda segue o mesmo padrão, o mesmo estilo, com algumas pequenas mudanças, pois antes do “Romance de Cordel” surgiu entre nós, também no Estado da Paraiba, a Poesia do Repente, com suas sextilhas, versos em setessílados, o que fez os folhetos seguirem esse rítmo. Hoje o repente é totalmente modificado, em suas diversas modalidades, Motes, quadrão, galope, etc. enquanto o Cordel permanece sempre na mesma modalidade.

– O cordel já foi usado como resistência poética e política como a voz do povo diante dos sistemas autoritários que já passaram por este país? Sabe se há algum registro de poetas perseguidos por este motivo?

Sempre houveram perseguições, censura, insatisfações e principalmente discriminações a muitos poetas. Na Paraiba mesmo já houve cassação a político poeta entre outras perseguições, como também há poetas que vivem exclusivamente de escrever sobre essas “baixarias”. Como exemplo maior cito a mim mesmo, que por não dobrar-me aos políticos de minha região e não deixar de mostrar os erros da Oligarquia sexagenária de minha cidade, mesmo sendo um funcionário público concursado, por duas vezes fui transferido dentro do Estado, tendo que lutar na Justiça para retornar ao meu antigo local de trabalho. E até hoje, mesmo aposentado, proferindo palestras e fazendo trabalhos em Escolas por todo país, não consigo fazer um trabalho em minha cidade, devido esse tipo de perseguição. Já dei entrevistas em TV, em várias emissoras  de rádio pelo Brasil a fora, e na minha cidade há duas emissoras de rádio e eu não tenho acesso por pertencerem a pessoas que exercem influências políticas, Mas nem por isso deixo de escrever o que sinto nem o que vejo.

– Concorda com Carlos Drummond de Andrade, que disse que “a poesia de cordel é uma das manifestações mais puras do espírito inventivo, do senso de humor e da capacidade crítica do povo brasileiro, em suas camadas modestas do interior.”?

Drummond sempre foi verdadeiro em tudo que escreveu. Até parece que me conhecia pois escreveu o meu “Hino Nacional”, E AGORA JOSÉ…

Quais são os poetas do cordel que você indicaria para quem quisesse entrar agora no mundo da literatura de cordel?

O Brasil é rico em “Pensadores Populares”, do passado e do presente que servem de inspiração a muitos que gostam de poesia popular. Não posso dar nomes para não cometer o pecado da discriminação. Mas orgulhosamente posso dizer que ao longo dos meus quarenta e um anos de poesia cordelista me serviram de espelho e inspiração, poetas do passado como Catulo da Paixão Cearense, Câmara Cascudo, Zé da Luz, mas recentemente os poetas Ariano Suassuna e Ronaldo Cunha Lima e atualmente há um grande poeta, prosador, declamador e criador de “alfabetos” na Paraiba, chamado Jessier Quirino.

– Existe um futuro, novos poetas que devemos ler?

Com certeza, pois em toda escola por onde tenho passado há alunos que me mostram poesias, me pedem explicações e eu já tenho corrigido muitas poesias, orientado muitos jovens  e elaborado  muitos cordéis de pessoas autônomas que querem enveredar pelo fantástico mundo da Literatura de Cordel.

– Obrigado pela colaboração

Eu que agradeço por terem me procurado para essa entrevista. Disponham desse sempre amigo e se quiserem divulgar algum título meu, estão em evidência os cordéis: O SISTEMA BRASILEIRO E OS LADRÕES DE CENTAVOS:   UM ANO ELEITORAL:    E   O ENCONTRO DE LAMPIÃO COM OS CABRAS DO MENSALÃO.

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