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Nunca Mais – Depoimento de um torturado pela ditadura militar na Argentina

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Recentemente chegou em nossas mãos o livro “Nunca Mais”, um informe da Comissão Nacional Sobre o Desaparecimento de Pessoas na Argentina, durante a ditadura militar no país. Durante alguns meses postaremos compilações dos depoimentos registrados neste documento.

Sete anos de tortura, desaparecimentos, três milicos no poder, 340 campos de concentração e mais de 30 mil mortos. Esta foi a ditadura militar na Argentina, considerada a mais sanguinária da América Latina.  O documento, conhecido como Relatório Sabato (em alusão ao homem que presidio a comissão, o escritor argentino, Ernesto Sabato), mostra a importância de comissões como estas, assim como a que ocorre neste momento no Brasil em relação à ditadura que vivemos. Para começar, publicamos o depoimento de um médico envolvido com ações sociais, preso e torturado durante o regime.

No dia 5 de abril de 1978, aproximadamente às 22 horas, o Dr. Liwisky entrava em sua casa no bairro de Flores, na Capital Federal.

Segue o depoimento:

Quando comecei a introduzir a chave na fechadura do meu apartamento, me dei conta do que estava acontecendo, porque puxaram bruscamente a porta para dentro e me fez cambalear. Saltei para trás, tentando escapar. Dois balanços (um em cada perna) fizeram abortar minha tentativa. No entanto, ainda resisti, violentamente e com todas as minhas forças, para evitar ser algemado e encapuzado, durante vários minutos. Ao mesmo tempo, gritava a plenos pulmões que isso era um sequestro e exortava meus vizinhos para que avisassem minha família. E também para que impedissem que me levassem.

Ja subjugado e “tabicado”, aquele que parecia ser o chefe me informou que minha esposa e minhas duas filhas haviam sido capturadas e “chupadas” (termo dado àqueles que eram presos). Quando, carregado pelas extremidades, porque não podia movimentar-me devido aos ferimentos as pernas, atravessava a porta de entrada do edifício, consegui ver uma luz vermelha itermitente que vinha da rua. Pelas vozes e ordens e ruídos das portas do carro, em meio aos gritos de protestos de meus vizinhos, poderia afirmar que se tratava de um carro-patrulha.

Depois de alguns minutos e após uma discussão acalorada, o carro-patrulha se retirou. Então me levaram à força e me atiraram no chão de um carro, possivelmente um Ford Falcon, e começou a viagem. Me tiraram do carro da mesma forma que tinham me colocado, entre quatro, e, caminhando um curto trecho (4 ou 5 metros) por um espaço que, pelo barulho, era um pátio de pedregulhos, me jogaram sobre uma mesa. Me amarraram os pés e as mãos aos quatro cantos. Já amarrado, a primeira voz que ouvi foi a de alguém que disse ser médico e me informou da gravidade das hemorragias nas pernas e que, por isso, não tentasse nenhuma resistência.

Em seguida se apresentou outra voz. Disse ser O CORONEL. Manifestou que eles sabiam que minha atividade não se relacionava com o terrorismo ou a guerrilha, mas que iam me torturar por ser opositor. Porque, segundo eles, eu não havia entendido que no País não existia espaço político para opor-se ao governo do “Processo de Reorganização Nacional”. Depois acrescentou: “Vai pagar caro…! Acabaram-se os paizinhos dos pobres!”.

Tudo foi vertiginoso. Do momento em que me tiraram do carro até que começou a primeira sessão de “picana”, passou-se menos tempo do que eu estou levando em contar. Durante dias fui submetido à “picana elétrica” aplicada nas gengivas, mamilos, genitália, abdômen e ouvidos. Consegui, sem pretender, deixá-los irritados porque, não sei por qual razão, usando a “picana”, ainda que me fizessem gritar, saltar e estremecer, não conseguiram que eu desmaiasse.

Começaram então um espancamento sistemático e rítmico com varas de madeira nas costas, nos glúteos, nas panturrilhas e nas plantas dos pés. No princípio a dor era intensa. Depois, tornáva-se insuportável. Por fim, desaparecia a sensação corporal e a zona espancada ficava totalmente insensível. A dor, incontrolável, reaparecia logo que cessava o castigo e aumentava ao me arrancarem a camisa que havia-se grudado às chagas, para levar-me a uma nova “sessão”.

Continuaram fazendo isto por vários dias, alternando com sessões de “picana”. Em alguns casos, foi simultâneo. Esta combinação pode ser mortal porque, enquanto a “picana” produz contrações musculares, o espancamento provoca relaxamento  (para defender-se dos golpes) do músculo. Nem sempre o coração resiste ao tratamento. Nos interválos entre as sessões de tortura, deixavam-me pendurado pelos braços em ganchos fixos à parede do calabouço onde me atiravam. Algumas vezes me jogaram sobre a mesa de tortura e me esticaram, amarrando pés e mãos a alguns instrumentos que não posso descrever porque não vi, mas que me produzia a sensação de que iam arrancar-me as partes do corpo.

Em determinado momento, estando de bruços sobre a mesa de tortura, segurando-me a cabeça fixamente, me tiraram a venda dos olhos e me mostraram um trapo manchado de sangue. Perguntaram-me se o reconhecia e, sem esperar muito a resposta, que eu não tinha por ser irreconhecível (além de ter a visão muito afetada), me disseram que era uma calcinha de minha mulher. E nada mais. Para que eu sofresse… Voltaram a vendar-me e continuaram me espancando.

No décimo dia da chegada neste “chupadero”, levaram minha mulher, Hilda Nora Ereñu, até onde eu estava atirado. Eu a vi muito mal. Seu estado físico era deplorável. Só nos deixaram dois ou três minutos juntos. Em presença de um torturador. Quando a levaram, pensei (depois soube que ambos pensávamos) que era a última vez que nos víamos. Que era o fim para ambos. Apesar de me informarem que ela havia sido liberada junto com outras pessoas, só voltei a saber dela quando, “legalizado” na Delegacia de Gregório de Laferrère, apresentou-se na primeira visita, junto com minhas filhas.

Também me queimaram, em duas ou três oportunidades, com algum instrumento metálico. Não o vi, mas a sensação era de que me encostavam algo duro. Não um cigarro, que se amassa, mas sim algo parecido com um prego incandescente. Um dia me atiraram de bruços sobre a mesa, me amarraram (como sempre) e com toda a paciência começaram a esfolar-me as plantas dos pés. Suponho, não vi porque estava “tabicado”, que o faziam com uma lâmina de barbear ou um bisturi. Às vezes sentia como se tirassem a pele com uma pinça. Desta vez desmaiei. E daí em dante foi muito estranho, porque o desmaio se converteu em algo que me ocorria com espantosa facilidade. Inclusive na vez em que, mostrando-me outros trapos ensanguentados, me disseram que eram calcinhas de minhas filhas. E me perguntaram se queria que as torturassem comigo ou em separado. Desde então comecei a sentir que convivia com a morte.

Quando não estava em uma sessão de tortura, me alucinava com elas. Às vezes acordado e outras em sonhos.

Quando vinham me buscar para uma nova sessão, faziam-no gritando e entravam na cela chutando a porta e golpeando o que encontravam. Violentamente. Por isso, antes que se aproximassem de mim, já sabia o que me esperava. Por isso também, vivia na expectativa do momento em que iam se aproximar para me buscar.

De todo esse tempo, a lembrança mais vívida, mais aterrorizante, era essa de estar convivendo com a morte. Sentia que não podia pensar. Procurava, desesperadamente, um pensamento para poder convencer-me de que estava vivo. De que não estava louco e ao mesmo tempo, desejava com todas as minhas forças que me matassem o quanto antes.

A luta em meu cérebro era constante. Por um lado: recobrar a lucidez e que não me desestruturassem as ideias, e por outro, que acabassem comigo de uma vez.

A sensação era de que girava no vácuo num grande cilindro viscoso, pelo qual deslizava sem poder agarrar-me a nada. A lembrança de todo esse tempo é tão concreta e ao mesmo tempo tão íntima que sinto como se fosse uma vícera que existe realmente. Em meio a todo este terror, não sei bem quando, um dia me levaram ao “quirófano”, e, novamente, como sempre, depois de amarrar-me, começaram a retorcer-me os testículos. Não sei se era manualmente ou por meio de algum aparelho. Nunca senti uma dor semelhante. Era como se me dilacerassem todo, desde a garganta e o cérebro até embaixo. Como se a garganta, o cérebro, o estômago e e os testículos estivessem unidos por um fio de nylon e fossem puxados ao mesmo tempo em que era tudo amassado. O desejo era que conseguissem arrancar-me tudo, e ficar definitivamente vazio.

Eu desmaiava.

E, sem saber quando nem como, recuperava a consciência e já estavam me arrancando de novo. E novamente estava desmaiando. Nesta época, desde os quinze ou dezoito dias a partir do meu sequestro, sofria de uma insuficiência renal com retençã de urina. Três meses e meio depois, preso na Penitenciária de Villa Devoto, os médicos da Cruz Vermelha Internacional diagnosticam uma insuficiência renal aguda grave de origem traumática, oriunda das surras.

Aproximadamente 25 dias depois do meu sequestro, pela primeira vez, depois do mais absoluto isolamento, me jogam num calabouço onde se encontrava outra pessoa. Se tratava de um amigo meu, companheiro de trabalho no consultório do Conjunto Habitacional: o Dr. Francisco García Fernández.

Eu estava “estropiado”. Ele me fez os primeiros e precaríssimos curativos, porque eu, em todo esse tempo, não tinha noção nem capacidade para tomar qualquer tipo de cuidado, nem limpeza. Somente alguns dias depois, tirando o “tabique” dos olhos, pude apreciar os danos que haviam me produzido. Antes não me foi possível, não porque  não tivesse tentado “destabicar-me” e olhar, mas sim porque até então tinha a visão muito deteriorada.

Então pude ver meus testículos. Recordei que, quando estudava medicina, no livro texto, o famosíssimo Housay, havia uma fotografia na qual um homem, devido ao tamanho enorme que haviam adquirido seus testículos, carregava-os em um carrinho de mão. O tamanho dos meus era similiar àquele e sua cor um azul enegrecido intenso.

Outro dia me levaram e, apesar do tamanho dos testículos, me deitaram mais uma vez de bruços. Me amarraram e, sem embaraço, machucando deliberadamente, me violaram, introduziram-me no ânus um objeto metálico. Depois me aplicaram eletricidade por meio desse objeto, introduzido como estava. Não sei descrever a sensação de como me queimava tudo por dentro.

A intensidade da tortura diminuiu. Isoladamente, duas ou três vezes por semana, me davam alguma surra. Porém, já não com instrumentos e sim, geralmente, socos e pontapés. Com este novo regime, comparativamente terapêutico, comecei a recuperar-me fisicamente. Havia perdiddo mais de 25 kg de peso e sofria da insuficiência renal já mencionada. Dois meses antes do sequestro, isto é, por fevereiro desse ano, sofri uma recaída de uma antiga salmonelose (febre tifóide). Entre 20 e 25 de maio, isto é, uns 45 ou 50 dias depois do sequestro, tive uma recaída da salmonelose associada à minha fraqueza física.

O trato habitual dos torturadores e guardas, conosco, era o de considerar-nos menos que servos. Éramos como coisas. Além disso, coisas inúteis. E incômodas. Suas expressões: “você é um merda”, “desde que te chupamos você não é nada”, “além disso ninguém lembra de você”, “você não existe, “se alguém te procurasse (não procuram), acha que iam te encontrar aqui?”,”nós somos tudo para você”, “a justiça somos nós, “somos deus”. Isto instantaneamente. Por todos. Todo o tempo, muitas vezes acompanhado de uma bofetada, rasteira, encontrão ou pontapé. Ou ao molhar-nos a cela, o colchão e a roupa às 2 da madrugada. Era inverno. No entanto, com o decorrer das semanas, havia começado a identificar vozes, nomes (entre eles: Tiburón, Víbora, Rubio, Panza, Luz, Tete). Também movimentos, que foram me confirmando (juntamente com a dedução prévia, por causa da estrada que poderia assegurar que percorremos) a o opinião de que o lugar de detenção tinha as características de uma dependência policial. Juntando os dados (aos quais podemos agregar a proximidade de uma delegacia, uma escola – ouviam-se cantos de meninas – também vizinha, a aproximadamente – sinos – de uma igreja ), se pode inferir que tratou-se da Brigada de Investigaciones de San Justo.

Entre as pessoas com as quais compartilhei o cativeiro – sei porque ouvi suas vozes e me disseram seus nomes, ainda que em celas separadas, estavam: Aureliano Araujo, Olga araujo, Abel de León, Amalia Marrone, Atilio barberan, Jorge Heuman, Raúl Petruch, Norma Ereñu. No dia 1º de junho, dia do início do Mundial de Futebol, junto com outros seis presos- desaparecidos, fui transportado em um veículo tipo camioneta (empilhados como sacos, uns sobre os outros), com os olhos vendados, para a Delegacia de Gregório Lafèrrere.

Participou do transporte um dos mais ativos torturadores. Também posso afirmar que foi ele que me baleou quando me sequestraram. O trajeto e o tempo gasto corroboraram a hipótese anterior com respeito ao Centro Clandestino. Um dado prévio de suma importância, depois, é o da minha participação profissional, a partir de 1971, na Escuela Piloto de Integración Social de Ninõs Discapacitados, que havia sido criada em 1963. Funcionava em Hurlingham, distrito de Morón.

Depois de permanecer dois meses na solitária dessa delegacia  (uma noite me fizeram assinar um papel – com olhos vendados-, que depois utilizaram como primeira declaração diante do Consejo de Guerra Estable 1/1), em 18 de agosto me levaram ao Regimento de Palermo, onde o Juiz de Instrução me faz saber das acusações. Entre elas figurava a minha participação na Escuela Piloto de Hurlingham, mencionada anteriormente.

Ali denunciei todas as violações, incluindo as torturas, o saque do meu lar e a assinatura da declaração sob coação e sem tê-la lido.

Esse documento é o depoimento escrito por Dr. Noberto Liwisky, uma das diversas vítimas da tortura praticada pela ditadura Argentina. Após ser levado ao Tribunal Militar, foi declarado inocente, por não ter acusações a serem feitas contra ele. Sua soltura foi expedida em seguida. Todo este martírio aqui documentado foi sofrido por uma pessoa contra a qual ninguém formulou acusação nenhuma.

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