Manifesto Editorial

A Revista Megafonia nasceu nas ruas, das lutas contra um sistema que oprime, mata e ainda tortura. Surgiu em um país de educação sucateada, saúde precária, no 3º mundo. Quando em 2013 vimos amigos e colegas da imprensa perdendo se ferindo, por conta do artefato repressor da polícia, resolvemos  agir. Já eramos um site de notícias, mas ainda muito inexperientes no campo de ação, por conta disso saímos do formato tradicional de mídia que tínhamos como modelo e assim como diversas mídias independentes que surgiam naquela época também fomos às ruas cobrir de fato o que ela tinha para dizer  e criar nossa própria narrativa.

Assim que tomamos esta decisão entramos de cabeça em um novo formato de produção midiática, bem mais combativa do que poderíamos imaginar encontrar em alguma redação corporativista servindo interesses de um Marinho ou Civita por aí. Víamos como o jornalismo nos dava caminhos diversos em meio as bandeiras dos movimentos e a fumaçadas bombas lançadas pela PM, cenários que nos cercavam no campo de batalha da luta de classes e do antifascismo. Em uma democracia que acabávamos de descobrir que estava morta e que para enfrentar essa obscura condição não podíamos mais seguir um manual padrão de redação

Em 2014 a copa do mundo finalmente chega ao Brasil, os protestos por todo o país começam e denunciam os diversos problemas trazidos pelos grandes eventos esportivos. Pessoas desapareciam nas favelas, perguntávamos “Cadê o Amarildo?”, víamos famílias perderem suas casas e presos políticos aumentando em número a cada dia.

Primeiro ato contr a aCopa do Mundo (FOTO: Kauê Pallone)
Primeiro ato contra a Copa do Mundo (FOTO: Kauê Pallone)

Sem qualquer vestígio da democracia o pau comia (e ainda come) contra manifestantes e contra nós que reportávamos os fatos diretamente da linha de frente, ao vivo em vídeo ou pelas rede sociais. Já no primeiro ato que cobrimos contra a copa do mundo fomos presos. Meses depois perseguidos pelo governo de São Paulo e também pelo governo federal, junto a muitas outras pessoas incluídas pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) no famoso “Inquérito Black Bloc”. Depois da canseira e da paranoia, o tal do inquérito foi arquivado e muitas coisas mudaram de lá para cá. Uma onda conservadora se expandiu desde 2013 e trouxe consigo o ideal nacionalista e fascista que antepassados nossos tiveram que enfrentar com muita garra nas trincheiras do cotidiano desde a revoada dos galinhas verdes até os anos de chumbo da ditadura militar, isso sem falar nos 500 anos de opressão que atravessaram a história desse país por uma sangrenta linha do tempo entre o Império e o Estado dito de direito que vivemos hoje.

Agora, no ano de 2016 a luta continua. Estamos aqui por uma mídia emancipada dos interesses do estado e da burguesia, que mostre da melhor forma a verdade que nossos olhos absorvem e que a nossa mente passará para o texto que vamos contar. Continuamos sofrendo repressão por sermos imprensa sem vínculos corporativos e por mostrar a violência policial, ao contrário do que muita mídia na TV tem feito.

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Ato contra a Copa do Mundo e a repressão policial (Foto: Amanda Ivanov)

Ao invés de querer passar um ar de veículo com alto rigor jornalístico, de nariz empinado e nos achando a autoridade midiática, nós preferimos aprender a desenvolver um novo jornalismo e em vez de usar a imparcialidade como disfarce na notícia, desconstruimos ela, não para transformar a narrativa em algo parcial apenas, mas para criar fatos coerentes, sem rabo preso e buscando sempre se aprofundar na complexidade que há nas lutas sociais e nas ruas.

Queremos um mundo onde não seremos uma de várias mídias, mas um ponto no universo de milhões de formatos jornalísticos, que não estarão mais nas mãos de grandes corporações e sim nas mãos de qualquer um, esperamos o jornalismo como mecanismo diário da resistência contra uma guerra de informações que já acontece e precisa de mais veículos independentes formados por um ou diversos agentes da produção de conteúdo, que produzam realmente o caminho da revolução pela autonomia, liberdade e emancipação da narrativa junto ao povo. Este que hoje sofre, mas que no futuro terá a voz.

Poder para o povo, dele vai nascer o mundo novo.

Estaremos lá.

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Contra a Copa em 2014 (Foto: Kauê Pallone)