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Leitura Anarquista – A greve geral em Bakunin, texto de Gaston Leval

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Este texto foi retirado do livro “Bakunin, fundador do sindicalismo revolucionário”, de Gaston Leval, onde o autor faz uma relação entre o anarquismo e o sindicalismo, começando a refletir sobre a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) como um período do “pré-sindicalismo revolucionário”, passando pela criação da Fraternidade Internacional e depois da Aliança da Democracia Socialista, organizações fundadas pelo próprio Bakunin. A ideia de expor esse trecho aqui no site é oportuna por conta do momento político que vivemos no país e por conta da organização de greves para combater a austeridade do governo Temer.

Segue o texto:

A ideia da greve geral fora lançada pelo congresso da Internacional realizado em Bruxelas em setembro de 1868, mas se tratava apenas de lutar contra a guerra. Em L’Égalité (periódico semanal  fundado em Genebra em 1868, órgão da federação das seções suíço-francesas da Internacional) de  3 de abril de 1869, Bakunin analisa todas as suas consequências possíveis. E, bem antes de Aristide Briand, ainda socialista revolucionário de esquerda, defende-se, em um discurso eloquente, essa modalidade de luta que Pelloutier, inspirado por Bakunin, havia apresentado sob o nome de “greve universal” no congresso regional operário realizado em Tours, em 1892, bem antes que Sorel a elevasse à altura de um mito, fonte de energia e grandeza, Bakunin vê nela todas as potencialidades:

“Quando as greves ampliam-se, comunicando-se pouco a pouco, é que elas estão bem perto de se tornar uma greve geral; e uma greve geral, com as ideias de liberação que reinam hoje no proletariado, só pode resultar em um grande cataclismo que provocaria uma mudança radical da sociedade. Ainda não estamos nesse ponto, sem dúvida, mas tudo nos leva a isso” (Bakunin, em  “A dupla Greve de Genebra)

Esse desejo de transformação social pela greve geral, sem desencadear violências comparáveis àquelas da revolução armada, é expressa ainda em um outro artigo em que Bakunin antecipa o sonho de numerosos sindicalistas do começo do século XX:

O dia em que a grande maioria dos trabalhadores da América e da Europa tiver ingressado e estiver bem organizada em seu seio (trata-se da Internacional), não haverá mais necessidade de revolução: sem  violência, far-se-á justiça. E se houver, então, cabeças quebradas, é porque os burgueses desejaram. (Bakunin, em “Organização e greve geral”)

Enquanto se esperava, prelúdio indispensável à greve geral, as greves parciais constituíam um treino pela prática da solidariedade e da organização operária, e provocavam a formação da necessária unanimidade de espírito. Todavia, sua frequência e suas consequências podem apresentar problemas dos quais  o tático responsável não saberia esquivar-se, e aos quais ele deve inclusive responder:

Mas as greves não se sucedem tão rapidamente fazendo temer que o cataclismo chegue antes da organização suficiente do proletariado? Não o cremos, pois, antes de tudo, as greves já indicam uma certa força coletiva, um certo entendimento entre os operários. Em seguida, cada greve torna-se o ponto de partida de novos agrupamentos. As necessidades da luta levam os trabalhadores a apoiarem-se, de um país a outro, e de uma profissão a outra; assim, quanto mais ativa torna-se a luta, mais essa federação de proletários deve ampliar-se em reforçar-se. (Bakunin, “Organização e greve geral”)

É verdade que não mais encontramos em Bakunin longas considerações relativas à greve geral. Ele não podia  nem queria, conhecendo demasiadamente bem a complexidade dos problemas, e o quanto intervêm os imponderáveis, pontificar sobre a questão. Seus continuadores anarquistas, discutindo com os sindicalistas, retorquiam que só a greve geral não bastaria para quebrar o Estado; que os privilegiados poderiam resistir por mais tempo que os proletários a uma paralisação dos transportes , da chegada e da distribuição de víveres nas cidades, e que, por consequência, a luta violenta seria inevitável. Em sua época, eles tinham razão, e Bakunin provavelmente o previra. O problema consistia para ele em diminuir o máximo possível o emprego da luta armada, reduzindo ao máximo a resistência material e moral do adversário.

Bloco anarquista pedindo pela greve no Rio de Janeiro. Foto: Kauê Pallone/Megafonia

Entretanto, para o conjunto dessas tarefas, é necessária antes de tudo, e ao máximo possível também “a organização das forças operárias”, “a unificação do proletariado no mundo inteiro através das fronteiras, e sobre todas as ruínas de todas as estreitezas patrióticas e nacionais”. (Em aspas trechos de “Organização da greve geral” e “La Politique de L’Internationale”, escritos por Bakunin).

Bakunin insiste sem descanso na necessidade dessa organização tão vasta quanto seja possível, na necessidade das uniões de ofícios, de suas federações nacionais e internacionais. E sempre atribui à Associação Internacional dos Trabalhadores o papel preponderante; esforça-se para dar-lhe consciência de si mesma, confiança em si, despertar sua audácia, estimular sua organização natural e a luta, igualmente natural dos trabalhadores, não tiveram apenas  por resultado o desenvolvimento  de sua associação e de sua solidariedade: a prática da luta social educa-os, fazendo-os esquecer a busca ou a consolação de um apoio supraterrestre, pois, a  partir do momento em que um operário, “associado a seus camaradas, começa a lutar seriamente pela diminuição de suas horas de trabalho e pelo aumento de seu salário, a partir do momento que ele começa a interessar-se vivamente por essa luta totalmente material, pode-se estar certo de que ele logo abandonará todas as suas preocupações celestes, e que, habituando-se a contar sempre mais com a força coletiva dos trabalhadores, ele renunciará voluntariamente ao socorro do céu. O socialismo assume em seu espírito o lugar da religião”. (Em aspas, trecho de “La politique de L’Internationale”, por Bakunin).

A experiência mostrou, com efeito, que é sobretudo nos centros industriais onde os sindicatos desenvolveram-se mais, que as massas perderam mais rápido a fé religiosa. Mas elas a perderam sobretudo desde este primeiro período da luta de classes em que se fazia apelo à coragem individual e à solidariedade coletiva. À medida que o espírito de autoridade cresceu no socialismo  e ganhou o movimento operário, podemos constatar um retorno à religião, ou, ao menos, à submissão religiosa, pois o espírito de obediência, o abandono da consciência ativa, da vontade pessoal, predispõem tanto à aceitação da autoridade dos chefes da Igreja ou dos representantes de Deus.

Essa luta direta entre o proletariado e o patronato e seus defensores deve ampliar bem mais ainda a educação social do trabalhador, fazendo-o:

“conhecer cada vez mais, de uma maneira prática e por uma experiência coletiva que é necessariamente sempre mais instrutiva e mais ampla que a experiência isolada, seus verdadeiros inimigos, que são as classes privilegiadas, a saber: o clero, a burguesia, a nobreza e o Estado; este último, estando aí apenas para salvaguardar os privilégios dessas classes, e tomando sempre e necessariamente partido contra o proletariado.O operário assim engajado na luta acabará forçosamente por compreender o antagonismo irreconciliável que existe entre serviçais da reação e seus interesses humanos mais caros, e tendo chegado a este ponto, não deixará de reconhecer-se e posicionar-se claramente como um socialista revolucionário” (Bakunin em “La Politique de L’Internationale)

Esse processo educacional, que oferece um certo paralelismo com a evolução que vai da organização da oficina à Federação internacional pelo desenvolvimento natural das coisas foi, ele também, retomado pelos sindicalistas. Infelizmente, e malgrado os esforços de Pelloutier, isso nunca foi bem longe. Sob pretexto da primazia da ação desprezou-se a cultura, a indispensável formação intelectual especializada.

Greve Geral, dia 28 de abril, no Rio de Janeiro. foto: Kauê Pallone/Megafonia

Esse foi apenas um trecho do livro de Gaston Leval, que nos próximos capítulos da obra disseca sobre os resultados do programa esquemático de Bakunin com o texto de “La Politique de L’Internationale, escrito em 1869. O programa de Bakunin incomodaria a ala autoritária da Internacional, pois em 1871, um acólito Karl Marx, seria enviado a Genebra pelo Conselho Geral  de Londres para ali combater a influência da Aliança da Democracia Socialista, e, particularmente, para arruinar a influência de Bakunin.  Em breve mais textos para a leitura anarquista serão postados aqui no site, mas enquanto isso confiram os outros textos que já publicamos aqui:

Leitura anarquista – Durruti está morto, contudo vivo

Leitura Anarquista: Bakunin sobre a Autogestão Operária

Leitura Anarquista: A ilusão do Sufrágio Universal

Leitura Anarquista – Bakunin, Deus e o Estado

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