Sociedade

Não há argumento para a invasão da PM na Favela do Moinho

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A Polícia Militar invadiu na tarde de ontem (27), a Favela do Moinho, na região central de São Paulo, em uma operação que resultou na morte do jovem Leandro de Souza Santos, de 18 anos, em ação capitaneada pela Rota (Rondas Ostencivas Tobias Aguair), um dos batalhões da PM que ainda faz parte da herança maldita do período militar. De acordo com o irmão da vítima, os policiais atiraram cinco vezes em Leandro depois que ele se assustou com os policiais e correu. “Ele saiu correndo, quando o helicóptero e os policiais seguiram e localizaram ele, entraram dentro do barraco e eu ainda estava dormindo e minha mulher me acordou dizendo que tinha ouvido barulho de tiro e pesada na parede dentro do barraco”, conta o irmão em um vídeo que pode ser visto abaixo, produzido por Caio Castor.


Em relato para a Ponte Jornalismo, moradores disseram que viram os militares perseguindo o jovem que teria entrado em um barraco próximo de onde ele morava, quando os policiais invadiram a casa e encurralaram Leandro, matando-o em seguida. Uma mulher que morava no barraco foi retirada à força do próprio lar pelos policiais militares. Testemunhas disseram que o jovem teria sido executado, foram encontrados sinais de tortura, como um martelo ensanguentado próximo ao corpo, assim como buracos de tiro forjados  nos móveis da sala, que segundo o irmão de Leandro foram feitos para criminalizar o jovem.

Indignados com a invasão da PM e a morte do rapaz, moradores da Moinho resolveram resistir e protestar contra a operação e a repressão do estado policial que queriam impor contra eles. Os militares resolveram então atacar a todos com balas de borracha e bombas. Idosos e crianças ficaram no meio da repressão policial  do Estado, que usa como desculpa as operações de exclusão e autoritárias contra usuários de drogas na Cracolândia (e apoiada pela mídia corporativista) e a falida guerra às drogas como motivo para invadir e matar pessoas na periferia de São Paulo.

Foto: Alice Vergueiro

Leandro é outra vítima de uma guerra do Estado contra as pessoas. Há décadas os mais pobres e marginalizados pelo sistema sangram nas mãos de uma polícia que com um apetite canino invade a quebrada para matar e manter o discurso de guerra às drogas onde a guerra mata mais que o uso de entorpecentes.   

O processo de desumanização e naturalização da morte de jovens negros na periferia  pode ser conferido através do relatório global da Anistía Internacional, lançado em fevereiro desse ano, intitulado “O Estado dos Direitos Humanos no Mundo”. No documento é analisada a situação dos direitos humanos em 159 países, relembrando uma série de casos ocorridos entre 2015 e 2016 que apontam o aumento da letalidade policial e a impunidade nos casos. No Rio de Janeiro, por exemplo, onde a guerra às drogas se faz mais presente do que qualquer outro lugar do país emergido no contraste entre a favela e o asfalto, o número de pessoas mortas pela polícia entre os períodos de abril a junho de 2016, foi 103% maior do que no mesmo período em 2015.

Foto: Alice Vergueiro

O caso de Leandro se une ao de  Vitor Santiago Borges, de 29 anos, que em 2015 foi atingido por disparos feitos por membros das forças armadas na favela da Maré, ou então aos Cinco jovens negros com idades entre 16 e 25 anos que foram mortos a tiros no bairro Costa Barros, no Rio de Janeiro, em 29 de novembro, por policiais militares do 41° Batalhão de Polícia Militar.

Essa guerra às drogas e aos que vivem nos locais mais pobres e marginalizados do país também é responsável pela superlotação das prisões, que além de criar um ambiente desumano e excludente se torna o fogo no pavio de massacres como o que ocorreu no presídio de Manaus. Um em cada três presos no país responde hoje por tráfico de drogas.

Esses números da violência policial, que escancaram o formato de repressão e exclusão do povo que vive na periferia complementam a ilustração da cena que os moradores da Favela do Moinho viveram na operação da PM. No final das contas, não houve nenhum resultado favorável à tal operação, o que aconteceu foi a morte de um jovem tragado pelo mal funcionamento de políticas públicas para usuários de drogas na cidade, que pelo braço armado de tempos da ditadura ainda faz vítimas para sustentar a gestão falida do Estado. Não há desculpa ou argumento que sustente a ação policial em uma comunidade que enfrenta há anos o distanciamento do poder público e dos direitos humanos.

A luta da Favela do Moinho

Desde a gestão de Gilberto Kassab (PSD) que começou em 2006 na prefeitura da cidade de São Paulo e terminou no início de 2013 com a eleição de Fernando Haddad (PT), a Favela do Moinho enfrenta uma disputa pelo terreno onde se encontra. Esse enfrentamento contra a especulação mobiliária continua até hoje regado à muita repressão e morte, tendo seu acirramento em 2007, quando Kassab entrou com uma ação para comprar o terreno gerando a desapropriação da comunidade, que seria obrigada a sair do local.

Em 2011 e 2012 a Favela do Moinho sofreu dois incêndios de grandes proporções, pessoas foram carbonizadas e até os dias atuais não se sabe o que gerou o incêndio, mas os moradores e movimentos ligados à comunidade sempre alegaram que seria relacionado à disputa do terreno com o Estado. Na mudança de prefeituras, Fernando Haddad continuou com os planos de seu antecessor, mesmo prometendo mudar a situação em campanha, o povo não deu ouvidos à Haddad e seguiu sua luta, derrubando um muro que havia sido construído no meio da comunidade após os incêndios e que dividia a mesma com um grande espaço aberto de terreno. Em um grande ato político dos moradores, o muro foi derrubado e simbolizou o reerguimento da luta diante das pressões dos governantes.

No dia 28 de maio, um enorme aparato policial invadiu a comunidade e o motivo era a “visita” do governador Geraldo Alckmin (PSDB), que sem explicação alguma do motivo da visita desfilou pela comunidade utilizando o local como palanque político para a mídia. Essa ação do governador de São Paulo mostra o quanto as intenções de desapropriação da comunidade e exclusão de seus moradores continua e se alia aos projetos de marginalização do povo que a prefeitura de João Doria (PSDB) está promovendo no centro da cidade.

Da visita de Alckmin à morte de Leandro em 2017, o que vemos é um grande jogo sádico sendo aplicado contra a população da Moinho, pois o derramamento de sangue que já vem de longos anos continua sendo a solução para o Governo paulista e sua polícia. Enquanto isso a família de Leandro e seus amigos choram e os moradores da comunidade vivem aflitos o perigo de novas invasões policiais. O jovem foi velado ontem na própria Favela do Moinho e enterrado hoje.


Foto de abertura e no restante do texto por: Alice Vergueiro

 

 

 

 

 

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