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Globo, de apoio à ditadura militar à criminalização de movimentos sociais

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Horário nobre, adicione a isso dois âncoras manjados e ao fundo deles um grande “A” anarquista cercado por punhos cerrados, para completar a cena uma trilha de suspense com sons de bombas. Assim começava a mais nova manobra midiática da maior rede televisiva do país contra anarquistas. Aqueles de memória mais conservada lembrarão de 2013 quando essa mesma rede tentava criminalizar os mesmos movimentos, ou então quando apertaram o gatilho da propaganda midiática que levou à aprovação da Lei antiterrorismo, sancionada ainda no governo Dilma e direcionada aos manifestantes mais combativos que se rebelaram contra os grandes eventos esportivos no país.

A matéria é parte da grade do Fantástico e começa se debruçando sob a mais recente tentativa de criminalização do livre pensamento no país, a operação Érebo. Capitaneada pelo insciente delegado de Polícia Civil, Paulo César Jardim, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a operação policial teve como objetivo realizar 10 mandatos de busca e apreensão com base em uma obscura investigação contra estudantes universitários suspeitos de coordenarem ações criminosas e “atentados” a concessionárias, carros luxuosos, uma igreja católica e contra a polícia. Residências foram invadidas de forma truculenta e arbitrária, tendo como resultado a apreensão de objetos comuns de nosso cotidiano e que não costumam ser tratados como provas de crime, entre eles, materiais de leitura anarquista, faixas, cartazes, máscaras, latas de spray e garrafas de plástico.

O teor da reportagem é logo percebido, incriminar movimentos anarquistas sérios e de longa data nas lutas sociais gaúchas, através de uma limitada leitura sobre a teoria anarquista e sua ação política e social, promovendo uma ampliação da criminalização em todo o país de qualquer  movimento que seja combativo, atuante e contrário à opressão do Estado e o regime imposto pela burguesia em nome de seu capital.

Baseada no delírio da denúncia proposta pelo delegado Jardim, que utiliza os livros anarquistas, panfletos e garrafas PET como embasamento para suas acusações, a reportagem coloca em cena os caminhos tenebrosos que o regime burguês quer apresentar à aqueles que se opõe à violência do Estado, o enquadramento de movimentos sociais em denúncias de formação de quadrilha ou a Lei antiterrorismo, aplicada pela presidenta Dilma antes de ser derrubada por seus aliados. Ambos os formatos de criminalização são colocados como únicas opções nas palavras do jurista Walter Maierovitch, esse a favor de que se aplique a acusação de terrorismo, e do professor de direito André Luís Callegari, favorável ao enquadramento como formação de quadrilha.

Nenhum contraponto à criminalização é adicionado na reportagem, imagens com pessoas atacando a sede do partido político DEM (Democratas), arquivos de reportagens com carros de polícia queimados e câmeras de segurança mostrando lixeiras sendo incendiadas são direcionados aos movimentos anarquistas sem ao menos haver qualquer evidência que tenham sido promovidos pelos militantes libertários.

Imagem deixada na parede da delegacia, da qual não pode ser atribuida a nenhum grupo. Foto: reprodução

O narrador da reportagem, com um tom de preocupação sempre acompanhado pela trilha de suspense relata que um livro com relatos de ataques às viaturas e uma pichação (bem maneira por sinal) de uma menina jogando molotov na parede da delegacia são as provas que a polícia tem para incriminar todo o movimento anarquista gaúcho.

A FAG (Federação Anarquista Gaúcha), maior atingida pela operação, teve uma de suas militantes exposta pelo repórter. Em um trecho da reportagem uma conversa entre ele e a militante Lorena, é reproduzida com balõezinhos de whatsapp, onde ele pergunta qual a opinião da FAG na defesa do anarquismo sobre atos de violência, a militante então questiona sobre qual o real motivo dele com aquela questão e termina enviando um desenho feito pelas mãos de uma criança com a frase “anarquismo não é crime”.

Lorena foi pontual e precisa com a mensagem, já que o repórter queria utilizar suas respostas como ferramenta de distorção da narrativa. Ele não conseguiu isso e deixou ainda mais limitada de informação que realmente seja coerente na sua reportagem.

A associação de anarquismo e terrorismo político ainda está bem viva no imaginário da população e a mídia como formadora de opinião e detentora do monopólio midiático se promove às custas da falta de informação sobre o tema.

O fraco e confuso conteúdo da reportagem vai mais além, colocando o anarquista Mikhail Bakunin como o único promotor das ideias do movimento e por ter sido o mais combativo deles foi aplicado de forma sorrateira na reportagem. O que não disseram é que até mesmo Bakunin, que lutou em diversas barricadas e exaltava a necessidade da violência nas lutas camponesas, tinha seus momentos de autocrítica e reflexão sobre o tema. “As revoluções sangrentas são frequentemente necessárias, gráças à estupidez humana, e, no entanto, jamais deixam de ser um erro, um erro monstruoso e um grande desastre, não só para suas vítimas como para a pureza e a perfeição das causas que se propõem defender”.

E para não nos limitarmos como a Globo, vamos além, outro importante anarquista, Piotr Kropotkin, aceitava a violência, embora não achasse o melhor caminho via nela o inevitável caminho das revoluções. Estes pensadores e militantes libertários aceitavam a violência por conta de uma tradição vinda de outras revoluções, como a francesa, americana e inglesa, porém com o passar dos tempos a violência nesses parâmetros ficou mais romantizada na militância anarquista do que utilizada na prática, pelo contrário, a violência comparada à estes eventos só pode hoje ser direcionada às ações do Estado, pois somente nas mãos do sistema é que vimos através da história recente os mais sanguinários massacres em nome da ordem e da justiça. Chacinas promovidas por policiais e grupos neonazistas se espalham como câncer pelas ruas, simbologia nazifascista e discursos de ódio são vistos diariamente na TV e ao contrário do que fizeram com os anarquistas na reportagem do Fantástico não dando nenhum direito real de voz ao lado da militância, por outro lado as ideologias de extrema-direita continuam tendo espaço cativo para disseminar suas mensagens na programação diária da Rede Globo e outras emissoras.

Diariamente a militarização do cotidiano nas cidades e o acirramento da intervenção política e armada do estado nas periferias demonstram qual o real interesse de todo esse sistema que se estende da presidência ao diretor de comunicação de uma mídia corporativista, que encobre a violência do estado contra a população mais pobre e criminaliza os movimentos que resistem à esta opressão diária. O liberalismo, o nacionalismo, o fascismo e o cristianismo, historicamente utilizaram muito mais da violência do que o anarquismo. E para os desavisados, ao longo do tempo os anarquistas foram e ainda são frequentemente as vítimas dessas formas de organização.

O delegado Paulo César Martins, que chamou os estudantes suspeitos de “organização do mal” é parte desse regime opressor, o mesmo é conhecido por fazer operações contra grupos nazifascistas em Porto Alegre, mas agora mais se parece parte de um grupo desses ao apreender materiais antifascismo e invadir sedes de movimentos como a do Instituto Parrhesia Erga Omnes, conhecido por atuar em lutas relacionadas a direitos humanos e que já foi premiado em 2013 e 2015 no Prêmio de Boas Práticas e Ações de Direitos Humanos pela Ajuris (Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul).

Outro local atacado de forma totalmente violenta e desnecessária foi a Ocupa Pandorga, como relata Núbia Quintana para a mídia Sul21. “Seis horas da manhã a Policia Civil invadiu e arrombou esse portão principal, fortemente armados, todos foram mandados ficar no chão, ficaram deitados no chão com armas apontadas durante um bom período enquanto todos os cantos da casa eram revistados” detalha a apoiadora da ocupa.

Esse tipo de ação violenta do Estado não é novidade, a FAG detalha em nota publicada em sua página do Facebook como a perseguição é recorrente até mesmo antes de junho de 2013, quando se acirrou a criminalização dos movimentos. “Em 2009, sob o governo estadual de Yeda Crusius (PSDB), a sede da Federação Anarquista Gaúcha (FAG), foi invadida pela polícia que roubou livros, computadores e material de propaganda. Na mesma época um professor anarquista foi executado e fez-se pensar que havia sido um suicídio. Em 2013, em duas ocasiões (junho e outubro) novamente a sede da FAG e a casa de um de seus militantes foi invadida, desta vez sob o governo Tarso Genro (PT), que declarou se tratar de “grupos criminosos com financiamento internacional”, diz trecho da nota.

Em nenhum destes casos a Rede Globo fez sua cobertura, em 2013 por exemplo a emissora estava “ocupada demais” produzindo uma cobertura criminalizadora das lutas e ignorando a violência policial contra manifestantes enquanto dava ênfase às ações diretas dos militantes contra símbolos do capital como vidraças e caixas eletrônicos.

Essa narrativa criminalizadora, apoiando a opressão diante da resistência do povo não vem de hoje, dentro da programação jornalística da Rede Globo.

A emissora que apoiou a ditadura

Pediram desculpas durante as jornadas de junho, enquanto nas ruas o povo dizia “a verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”, em um editorial no jornal O Globo eles afirmavam que haviam apoiado os milicos em 64, mas com uma cara que invejava até mesmo o Pinocchio e muita peroba para reforçar a face de madeira eles tentaram se redimir.

Não adiantou muito, talvez a alma dos diretores da Globo estava lavada pelo sangue dos que morreram nos porões da tortura do regime militar, mas o povo que até hoje está nas ruas lutando contra a austeridade do governo ainda grita com toda a força a frase que entrega a globo à sua hipocrisia midiática.

Não é preciso muito esforço para achar as capas de O Globo, onde o apoio quase canino se esparrama pela página que abre o jornal e as que seguem seu conteúdo. Se pesquisarmos no arquivo digital do jornal o período do regime militar, acharemos um vasto conteúdo relacionado ao apoio incondicional de Roberto Marinho para com os militares.

Documentos já divulgados comprovam as ações da família Marinho nas articulações do regime militar e como parte de um quarto poder lhes eram concedidos privilégios que ajudaram até mesmo na criação da TV Globo, que nasceu desse casamento sinistro.

Ao se entregarem no editorial de “mea culpa”, as organizações Globo omitem um dos capítulos mais constrangedores de sua história. Em 26 de abril de 1965, já havia passado um ano de golpe e a TV Globo era inaugurada, mas três anos antes o que possibilitou que isso acontecesse foi um acordo considerado ilegal com a empresa americana Time-Life. Com o acordo a Globo teve acesso a 6 milhões de dólares, dando direito à 30% na participação dos lucros para a Time-Life.

Na época a Constituição Brasileira proibia a participação de pessoas ou empresas estrangeiras em empresas de comunicação. Em 1967, já com os militares no poder, a legislação sobre concessões de telecomunicações mudou, criando restrições aos empréstimos e qualquer contratação de assistência técnica vinda dos gringos, porém como foi uma medida sem efeito retroativo e os contratos haviam sido firmados em 1962 e 1965, em outubro do mesmo ano a TV Globo foi oficialmente legalizada.

Os anos se passaram e a família Marinho mandou e abusou de seu poder de mídia, em troca os militares tinham todo o apoio midiático que ajudava a manter o regime intacto e o país em transe. Com isso colaboraram não só com a omissão de desaparecimentos, torturas e mortes de opositores ao regime, como também mantiveram seu monopólio na formação da opinião pública até os dias de hoje.

Para que o leitor confira na prática o que estamos falando é só comparar a narrativa que encontramos no jornal durante a ditadura, com a reportagem do Fantástico que analisamos neste artigo. Vamos deixar aqui o link do acervo, exatamente no período destacado para que a partir dessa análise surja a decisão sobre se, estamos ou não, caindo em um poço de retrocesso  com matérias como a do Fantástico nos dias de hoje.

 

 

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