Cultura e Resistência

Glauco, subversão natural

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Exposição de cartuns do artista relembra seu estilo anárquico e iconoclasta dos costumes

A arte do cartum sempre foi uma arma da imprensa, seja no âmbito da esquerda popular ou nas alas mais retrógradas da direita, o traço sempre influenciou o público leitor. Em seu aspecto humorístico solto ou caricatural, essa prática quase nunca era levada a sério por parcela significativa dos intelectuais.

Entretanto, hoje já se sabe que o cartunista em um espaço relativamente pequeno pode alcançar muito mais as massas do que mil palavras e jargões jornalísticos de maneira muito mais eficaz. Vide os trabalhos de gente como Paulo e Chico Caruso que, para quem não sabe, apesar de serem irmãos gêmeos, são antagonicamente opostos no ponto de vista ideológico e temático de seus trabalhos. Podem dialogar com pessoas de perfis totalmente diferentes ao mesmo tempo, podem agradar ou não. Tudo depende do olhar.

Nessa tacada, um dos cartunistas que mais influenciou o Brasil e ajudou a banir a ditadura, foi o paranaense Glauco Villas Boas, que espinafrou a opressão militar daquele período com traço simples e pitoresco.

A exposição dedicada à sua obra, que acontece em um espaço cultural vinculado a um banco na Avenida Paulista, reverencia o legado deste que foi um dos mais escatológicos artistas dos últimos tempos. “Ocupação Glauco” teve início dia 09/7 e vai até o mês de agosto com fotografias, originais e vídeos.

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Imagem: reprodução

O cartunista é celebrado na exposição com depoimentos gravados em vídeo de amigos que recordam com graça dos tempos em que este era sempre o último a chegar ou mesmo faltava na hora marcada para elaborar as tiras de Los três amigos, personagens feitos a seis mãos, juntamente com os parceiros Angeli e Laerte. Com os atrasos, quase sempre um dos dois tinha que desenhar o bonequinho de Glauco.

Mais tarde, cansados de levar bolo do amigo, decidem acabar com a parceria, como lembra Angeli, ao fazer o comunicado: “Glauco, não dá mais pra continuar com o Los três amigos, vamos parar de fazer”. Ao ouvir a notícia, respondeu: “Mas por quê? Estava tão bom!”. Sua naturalidade era seu trunfo, ninguém conseguia ficar com raiva de Glauco.

Suas charges, assim como seu traço, não eram complexas, eram carregadas de ironia de um verdadeiro sentimento anárquico. Essa tendência pode ser notada na lendária piada que o fez vencer o Salão de humor de Piracicaba: um prisioneiro está acorrentado em algum lugar dos porões da ditadura militar, quando esse passa o pé na bunda de um dos algozes que andava por ali, e diz: “Bundão, hein?”. Era a genialidade que economizava papel e dava o seu recado em apenas uma frase. Dizia pouco e tanto ao mesmo tempo.

 Em sua mais conhecida criação, o solteiro e virgem Geraldão, Glauco lembra que é uma crítica à sociedade dos excessos, retrata um personagem que vive se drogando com seringas espetadas no nariz, equilibra várias taças e copos com uma mão, na outra segura um hot dog, fuma vários cigarros ao mesmo tempo e uma garrafa de cerveja pende em cima de sua cabeça.

Além dos tóxicos, Geraldão era um viciado em televisão e em todas as formas de indústria cultural. Talvez, a pior das drogas. Geraldão ainda era um tarado confesso pela mãe e que a espiava pelo buraco da fechadura constantemente, coisa que até mesmo Freud poderia ter dificuldade de diagnosticar.

Glauco, com seu estilo arrojado, foi um iconoclasta dos costumes, destruiu regimes e ideais opressores com sua caneta, aprendeu na escola de grandes mestres como Henfil que lhe conduziu a um estilo próprio. Assim como o mestre que disse que “morreria, mas seu desenho ficaria”, Glauco seguiu seus passos deixando saudades e a esperança de um mundo mais humano e humorado.

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Imagem: reprodução
Ocupação Glauco
Onde: Avenida Paulista, 149 – Bela Vista
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