Política

Em Brasília, indígenas são atacados pela polícia na Câmara dos Deputados

Compartilhe isso:

Um grupo de cem indígenas, em sua maioria do sul do país, foram atacados com bombas de gás lacrimogêneo pela Polícia Militar enquanto tentavam entrar em uma audiência pública organizada pela bancada ruralista na Câmara dos Deputados, durante a manhã da última quarta-feira (18), em Brasília. A audiência foi convocada pelos ruralistas para tentar legitimar a proposta de legalização do arrendamento de terras indígenas, permitindo a exploração privada de terras indígenas e o avanço do agronegócio sobre esses territórios.

De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Dois indígenas Kaingang, um Guarani e um Terena chegaram a ser detidos. Os indígenas são contrários ao arrendamento e se manifestavam em defesa de suas terras, porém ao tentarem entrar na audiência, que acontecia no Anexo 2 da Câmara dos Deputados, foram impedidos por bombas de gás lacrimogêneo, efeito moral e spray de pimenta. As senhas da audiência foram disponibilizadas pela bancada ruralista apenas para pessoas que são à favor da proposta.

Após a repressão, o indígena do povo Guarani foi detido pela Polícia Militar, mas a seguir foi entregue para o Departamento de Polícia Legislativa (DEPOL), onde também foram mantidos o indígena Terena e um dos Kaingang.

Em um vídeo que flagra a ação da PM é possível ver que há uma criança na frente dos escudos policiais quando as bombas e o spray de pimenta são lançados contra os manifestantes, atingindo também a criança. O pai da menina, um índio Kaingang, foi o quarto detido enquanto tentava buscar atendimento para ela, a criança tem cinco anos e passou mal com o efeito das armas químicas.

“Teve um pessoal que me chamou para fazer a consulta da nenê e nos levaram. Quando estávamos entrando, o pessoal acabou nos cercando e nos levou para dentro, disseram que estávamos detidos e que não poderíamos sair dali. Tentei comunicação com nosso cacique e nossa liderança e não deixaram”, conta E. S. Kaingang. O indígena também relata que houve todo um esquema para que ele fosse o alvo da prisão. “Me senti totalmente intimidado, cinco policiais em volta de mim e da minha filha. Isso me deixou bastante triste, porque pareceu combinado para me incriminar. A gente estava numa reivindicação pacífica e eu e minha filha queríamos participar da audiência que estava acontecendo”, completa.

Os quatro detidos foram liberados após a negociação de advogados e da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara. Porém, três deles (incluindo o pai da criança) serão investigaods pela Depol por dano ao patrimônio público. No vídeo também é possível constatar que o único dano causado por alguém na ação foi promovido pela polícia e nenhum patrimônio público foi atingido, a não ser pelas bombas.

Criança atingida pelas bombas. Foto: reprodução.

“O arrendamento tem causado muito conflito dentro de nossas terras, e tem muita expulsão de indígenas dessas terras onde são arrendados”, afirma Kretã Kaingang, da coordenação da Apib.

A audiência (que não teve nada de pública), foi deslegitimada por organizações indígenas como a Associação Terra Indígena do Xingu (Atix), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e o Instituto Raoni. O arrendamento de terras demarcadas é uma prática de esbulho inaugurada ainda na época do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), no início do século XX. Ela tem como base de argumentação a “geração de renda”, mas foi a partir dessa prática que muitos dos atuais conflitos por terra se instauraram, especialmente na região sul do país.

“Os deputados ruralistas da região sul sabem que se trata de um discurso divisionista, já testado com sucesso contra os povos indígenas em passado recente, e buscam com ele o mesmo resultado: romper a resistência dos povos para fazer avançar os seus interesses de posse das terras indígenas em todas as regiões do país”, avalia em artigo o secretário executivo do Cimi, Cleber Buzatto.

Em nota divulgada na última quinta-feira (11), o Instituto Raoni, entidade representativa de 3.100 indígenas localizados na região do baixo Xingu, entre os Estados de Mato Grosso e Pará, em nota divulgada na última quinta-feira (11), diz saber os reais interesses dos deputados ruralistas. O texto relembra iniciativas anti-indígenas dos mesmos parlamentares que propõem a audiência, como a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) da Funai-Incra e o Projeto de Lei (PL) 1610, que permite exploração mineral em terra indígena. “Nosso futuro depende do nosso território, livre de invasores e de parlamentares com opiniões e atitudes contrárias e que infere aos direitos indígenas”, diz trecho da nota, confira o restante aqui.

Compartilhe isso:

Comente

Comentários

Powered by Facebook Comments