Cultura e Resistência

Dub Ataque fortalece cultura de rua no RJ

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Sound System ocupa as ruas do centro carioca com sons e manifestos pela cultura popular

Imagens: Yhas La Porta Fotografia

Ocupar a cidade influenciando a cultura popular é necessário, ainda mais no Rio de Janeiro, onde as ruas do centro transbordam cultura e são palco da história erudita do Brasil há séculos. Em meio ao caos e a desigualdade da metrópole carioca, algumas das poucas festas que acontecem dentro desse conceito está trazendo um verdadeiro baile de sound system a céu aberto, nas ruas do centro e da Lapa. Os encontros são produzido pelo sistema de som Dub Ataque, grupo que surgiu com o selo Dubatak em 2006, e vem se tornando uma das principais influências da cena sound system e reggae do país.

Desde o ano de 2011, Mateus Pinguim, produtor musical e MC, e Leo Flores, engenheiro de som e DJ, dedicam longas horas de seus dias para o Dub Ataque, compondo letras, ritmos e sons, e parcerias com nomes da música reggae, como Helio Bentes, vocalista da banda Ponto de Equilíbrio, Shaky Norman, Kas Dub e MC LittleCar, sistema de som de São Paulo, entre outros, que participam do álbum recém-lançado Sound System Cultura de Rua , com 15 faixas inéditas.

Em uma conversa com a Revista Megafonia, Pinguim contou sobre as inspirações para compor as músicas, sobre a cena sound system no Rio, além de discutir questões sociais, censura,  legalização das drogas e o lançamento do clipe Joga Pra Mim, que contém uma crítica à Operação Lapa Presente, da Polícia Civil, que no vídeo recebe o nome de “Cultura Ausente”.

RM – Como surgiu o Dub Ataque e desde quando?

DA – Dub Ataque surgiu como um selo em 2006 (dubatak), depois ampliamos para o sound system em 2011. Em março de 2011, eu e o Leo saímos dos nossos empregos convencionais e decidimos viver da cultura sound system. Por isso, gostamos de dizer que o Dub Ataque começou quando largamos a babilônia, ou seja, março de 2011.

RM – Como é o cenário do sound system no Rio? Há bastante gente fazendo esse tipo de som? As festas são bem aceitas pelo público?

DA – O cenário no Rio ainda é fraco se comparar com o de São Paulo ou outras metrópoles pelo mundo, como Paris. Mas de uns tempos pra cá cresceu bastante. Fizemos nossas ocupações na praça XV e vimos que isso trouxe um gás pras outras equipes, porque o público passou a se identificar com o movimento de rua. Hoje já tem evento desse tipo rolando pela zona norte, oeste e baixada. O reggae é cultura do povo e o povo carioca gosta muito também, então quando uma equipe de som trabalha sério e faz acontecer o movimento, a massa comparece e prestigia.

RM – Percebo que o Dub Ataque faz músicas com temas políticos, libertários e jovens. Como surgiu a ideia de adicionar esse teor às músicas do grupo? 

DA- Não surgiu uma idéia na real, eu componho desde criança e as minhas letras sempre foram expressão do que eu penso e vivo no momento em que escrevo. Então os temas surgem de forma natural na medida em que vivemos. Me interesso por libertação, meditação, relação com a natureza, nossa evolução, política, história e também humor.

RM – No álbum SOUND SYSTEM CULTURA DE RUA, ouvimos músicas que ressaltam a legalização da maconha e da liberdade. Por que esses assuntos estão em pauta no som de vocês? Como vocês avaliam a criminalização das drogas?

DA – Sim, somos a favor da legalização das drogas e do fim dessa guerra. Usamos a música como ferramenta de comunicação com a sociedade que vivemos, então a letra vai defender essa idéia. É uma piada de mau gosto fingir que o nome “droga” é uma coisa ruim enquanto as “drogarias” crescem que nem uma praga pelas cidades. A proibição nunca solucionou o problema dos que estão viciados e se proibirem qualquer remédio que está sendo vendido na farmácia, ele pode se tornar um produto de tráfico. Um viciado deve ser tratado por um médico e não por um policial. É um pensamento opressor que reina na terra, ainda acreditar que é preciso bater, encarcerar e até matar pra resolver as questões, e é contra esse pensamento que lutamos, queremos ele fora do nosso planeta.

RM – A ilusão da felicidade, a falta de informação sem manipulação, os problemas sociais, como a falta dos direitos essenciais para a sobrevivência, miséria, fome, falta de transporte de qualidade e violência são temas da música “Babilônia quer te iludir”. Pode explicar porque defendem essa mensagem? 

DA – Essa letra é uma mensagem pras pessoas que estão presas nessa máquina, sendo apenas mais uma pecinha encaixada do lado de milhares de outras. Vejo as filas das conduções, vans, ônibus, trem e metrô totalmente lotados porque todos os seres precisam ir e voltar no mesmo horário. Então, na maioria das vezes é a pessoa que escolhe ficar dentro de uma lata de sardinha porque tem que chegar em casa e fazer as mesmas coisas que faz todo dia. Aí você analisa bem e vê que no fundo ela quer ver a maldita televisão pra relaxar e não pensar em nada. Mas existem outras opções pra relaxar, comece evitando esse horário da massa. Não volte pra casa logo, marque um dez no melhor lugar próximo ao seu trampo e fique pensando em si mesmo, já vai valer mais a pena.

RM – No clipe da música “Joga para Mim”, atual lançamento do Dub Ataque avaliei uma crítica a operação Lapa Presente, com pessoas vestidas de agentes com a mensagem “Cultura Ausente” no colete. Qual mensagem vocês pretendem passar com essa crítica?

DA – A Lapa é um lugar de cultura, sempre foi. As ruas da Lapa sempre transbordaram cultura, e esse é o verdadeiro Rio de Janeiro que o Brasil ama. Com certeza temos problemas como roubo, trafico, prostituição… Mas eles implicam com o usuário, que é o artista de rua, o frequentador, o cara do reggae, do rap…  e tem uma perseguição forte com a maconha, porque sentem o cheiro e pegam muitos de surpresa pelas ruas. Mas maconha também é parte da nossa cultura, sempre foi. Os índios e os africanos também são nossos ancestrais e o uso da erva sempre esteve presente. Porque querem impor a cultura que veio do europeu, de oprimir? Nem os europeus são assim hoje!! Então quando eles perseguem a gente, eles estão acabando com a cultura da Lapa.

RM – Vocês já presenciaram ações dessa operação? O que os PMS fazem?

DA – Sim, já fomos proibidos de tocar nosso som na Praça dos Arcos, por exemplo. Eles sabiam que íamos fazer o evento, fomos até lá pedir autorização, mostramos os documentos e disseram que estava ok. Mas no dia eles resolveram implicar, viram que era o movimento reggae, proibiram o som e ficaram dando incertas no público, revistando suspeitos de estarem fumando maconha. Alegaram faltar documentos e proibiram o som, por imposição.

RM – E qual é a opinião de vocês sobre intensa perseguição dos usuários de maconha no Rio de Janeiro, mas precisamente no centro?

DA – A gente sabe que o policial ganha um  extra com essas pequenas causas. Vale mais a pena perder 50 ou 100 reais do que ir até a delegacia e ficar naquela novela… Então rola muito isso ainda, propina. E rola um preconceito contra o uso da erva, que vem de uma propaganda vendida há anos pelo mundo através dos Estados Unidos. Eles que semearam essa visão negativa e agora estão legalizando, ou seja, vão precisar mudar a visão das “colônias” agora. Por isso acredito que uma hra vai mudar até mesmo o pensamento do policial no Rio de Janeiro.

RM- Como a música pode auxiliar as pessoas a se libertarem das imposições opressoras, inclusas no nosso dia a dia e da manipulação de informações, na opinião de vocês?

DA – A música traz a informação que um livro traz, mas de forma mais agradável e fácil de absorver. Acho que a música tem mais do que só a letra e as notas musicais, ela traz uma forma de viver diferente pras pessoas, principalmente o reggae. Influencia nas decisões porque traz autoestima, esperança e coragem, e as pessoas absorvem sem nem perceberem.

RM – Vocês já sofreram algum tipo de violência ou descriminação por causa do reggae e das músicas? 

DA – Violência não porque nós não reagimos, mas sabemos que no caso da Lapa Presente, existe uma descriminação contra o reggae, os artistas de rua e artesãos, porque são usuários da erva. Eles sabem que temos essa força e têm medo do nosso crescimento, porque vai dar mais trabalho para eles defenderem o sistema, e são pagos pra isso. Alguns policiais mais jovens conversam abertamente sobre isso e assumem essa postura.

RM – Se quiserem incluir mais informações, fiquem à vontade.

DA – Vamos lançar mais vídeos desse álbum, o Sound System Cultura de Rua. Se inscreva no nosso canal do youtube pra receber notificação e assistir primeiro!!

www.youtube.com/dubatak

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