Cultura e Resistência Outro

Cinema e cultura popular resistem ao genocídio do povo na periferia

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Das comunidades nascem os frutos da resistência, Cine Comunitário do Povo combate as barreiras do Estado e sua polícia genocida, através do cinema, da valorização da cultura própria, música e com uma juventude articulada na Bahia

Ocupar espaços públicos é preciso, o Estado tenta impor barreiras ao potencial criativo e cultural do povo, invade comunidades com sua polícia  para impedir a autonomia coletiva da quebrada, felizmente a periferia resiste e promovendo a cultura popular mantém a luta contra o genocídio do povo, tão criminalizado e oprimido pelo sistema. No estado da Bahia, no município de Cachoeira, que está distante cerca de 120 km da capital Salvador, a resistência cultural e coletiva da periferia persiste na resistência à guerra promovida pelo Estado nas ruas e vielas da região e praticada pelo braço opressor do Governo, a Polícia Militar. Um dos frutos desta resistência na periferia é o Cine Comunitário do Povo, um cineclube que converteu a sétima arte em resistência popular, usando a cultura como ferramenta de mobilização e articulação da comunidade contra a repressão.

O Cine do Povo foi criado em 2011, inicialmente com o nome de Cine do Povo do Viradouro, nasceu como uma ação permanente do Núcleo de Negras e Negros Estudantes (Núcleo Akofena) da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), no município de Cachoeira. O bairro de Viradouro é conhecido por ser uma das regiões mais discriminadas e criminalizadas da cidade.

“Além de exibir filmes o objetivo era construir um processo de trabalho de base que instrumentalizasse a comunidade no enfrentamento à brutalidade policial, que era e ainda é endêmica nas periferias da cidade de Cachoeira”, nos conta Fred Aganju, um dos articuladores do Cine. Conforme conta, a região onde atua o Cine do Povo é uma cidade colonial encharcada de sangue negro e indígena, palco de centenas de revoltas populares. Cachoeira é um município conhecido internacionalmente pelo seu valor arquitetônico, por seus terreiros de candomblé, irmandades negras, rodas de samba e uma viva atividade cultural noturna, além de ser sede de um dos campus da UFRB.

“O que poucos sabem, ou fingem não saber, é da guerra não declarada que acontece nas ruas e vielas da cidade, deflagrada pela Polícia Militar contra os moradores da periferia, sobretudo, jovens negros de idade entre 15 e 29 anos. Como na conjuntura nacional, a justificativa é o combate ao tráfico de drogas. Para se ter uma ideia, apenas nesses primeiros cinco meses do ano de 2015, sete jovens foram assassinados em operações policiais nas periferias de Cachoeira, notadamente pela Polícia Militar, através de seu Pelotão de Emprego Tático Operacional (PETO). Esses números assombrosos de pelo menos 2 jovens negros mortos pela polícia a cada mês, são fragmentos de uma realidade nacional, ou seja, o processo de Genocídio contra o Povo Negro no Brasil”, explica Aganju.

Diante de um ambiente hostil como este, a história de resistência do Cine do Povo foi conquistando seu espaço, durante um ano após ser criado o Cine do Povo atuou de forma permanente, intercalando as exibições de cinema com atividades culturais de formação, voltadas para a Cultura Hip Hop. De acordo com Aganju, este período foi muito importante pois através deste acúmulo de ações e movimentos foi possível criar uma identidade ideológica para o Cine do Povo, o trabalho comunitário como ferramenta de ação e resistência, onde a cumplicidade entre o bairro do Viradouro e o Núcleo Akofena foi essencial para o fortalecimento da coletividade.

Em 2013, por uma série de motivos, o Cine do Povo ficou praticamente inoperante, chegando a encerrar sua atuação no bairro do Viradouro, porém, após um ano de recesso, um grupo de moradores do bairro, mães, pais, artistas locais e jovens que participavam das ações do cineclube, articularam uma reunião para discutir a retomada das atividades do Cine Comunitário do Povo. Desta reunião foram debatidas algumas questões, como o aumento da brutalidade policial e a criminalização do povo através da mídia burguesa local, que na época em que as atividades do cineclube eram frequentes haviam diminuído. “Dessa forma, o Cine deveria voltar, sobretudo como um instrumento de autodefesa comunitária e descriminalização dos espaços públicos da comunidade”, conta Aganju.

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O cineclube foi refundado e as atividades impulsionadas pelos jovens do bairro, abrangendo aspectos técnicos do cineclubismo e de comunicação comunitária. É neste momento que o nome Cine Comunitário do Povo é criado. O intuito da inclusão do termo “comunitário” veio com a intenção de multiplicar e descentralizar as atividades do cineclube para outras comunidades de Cachoeira. Durante um ano o cineclube atuou sem qualquer tipo de divulgação ou mobilização em redes sociais ou qualquer veículo de comunicação, um jovem foi eleito para coordenar e impulsionar esse processo de reorganização do cineclube, além de ser estabelecido uma espécie de conselho comunitário consultivo, composto por moradores do bairro que eram mais atuantes no Cine do Povo.

Após meses atuando apenas nas ruas de forma ativa e sem interferência externa ou mobilizações na rede, foi realizada a primeira atividade pública, chamada de Arte na Comunidade: Consciência Negra contra a Brutalidade Policial.

“Com esse novo formato, nos constituímos basicamente como uma organização comunitária que atua nas periferias de Cachoeira com a realização de ações permanentes centradas em uma política cultural comunitária, abrangendo instrumentos como o cinema, educação popular, movimento Hip Hop, entre outros elementos da cultura da juventude negra periférica”, explica Aganju.

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Depois da mobilização ser iniciada, outras ações comunitárias começaram a ser postas em prática. Começam então as exibições audiovisuais itinerantes, em regime quinzenal, nas praças dos bairros periféricos de Viradouro, Vila 25 de junho, Três Riachos, Três Bocas, entre outras regiões de Cachoeira, onde filmes com a temática relacionada à cultura negra e comunitária, promovem a autoidentificação dos moradores nas telas do cinema, incentivando o trabalho de articulação, mobilização, sensibilização e politização dos sujeitos envolvidos. Além do cineclubismo, há atividades culturais e políticas, com programações voltadas para o público de todas as idades, explorando diversas linguagens artísticas: música, poesia, fotografia, artes cênicas, dança, etc. Em fevereiro deste ano ocorreu a primeira edição do Encontro de Cineclubes Comunitários da Bahia, com a proposta de desenvolver mostras de cinema no município através do Cine do Povo, promovendo o intercâmbio e articulação entre os cineclubes de origem periférica e subalternizada da Bahia. O encontro também contou com oficinas de formação na instrumentalização do movimento cineclubista comunitário baiano.

A educação como ponto de partida no desenvolvimento cultural, politico e social não foi deixada de lado pelo cineclube. Cursos integrados de arte, cultura, educação e esporte, utilizando o cinema, a literatura e elementos da cultura Hip Hop como instrumentos pedagógicos de educação popular na formação de jovens lideranças comunitárias, são parte da ação mais recente do cineclube, conhecida como Cine do Povo na Escola. “As ações são realizadas em parceria e nas dependências da Escola Estadual Edvaldo Brandão, em Cachoeira, tendo como público-alvo, jovens entre 14 e 23 anos, sempre no período da tarde e abertas à comunidade. Além das atividades permanentes de exibições de filmes, aula de basquete, capoeira e criação literária, o curso oferece esporadicamente oficinas de grafite, fotografia, rima, palestras e rodas de conversa com convidadxs”, explica Aganju.

O município de Cachoeira conta com um campus da UFRB, nele há o curso de cinema, nacionalmente reconhecido e que atrai diversos interessados na área para estudar na região. Apesar da alta adesão ao curso universitário, o município de Cachoeira carece da influência mais ativa do cinema nacional, talvez pelo teor comercial que a indústria cinematográfica brasileira tem dado aos seus filmes mais populares.

“De maneira geral, o curso se fecha em si mesmo e pouco ou nenhuma relação tem com as comunidades periféricas da cidade, contribuindo, em certa medida, para uma elitização racialmente seletiva da cultura cinematográfica, ou mesmo, apenas utilizando a cidade como um laboratório cinematográfico onde a população, majoritariamente negra, é tomada como ratos de laboratório.”, desabafa Aganju. Segundo o articulista do Cine do Povo, a construção de uma alternativa comunitária ao movimento acadêmico do recôncavo, para o acesso e produção da sétima arte, é importantíssima. “Acesso no sentido da popularização de filmes que habitualmente a população não vai ver na Sessão da Tarde ou na Tela Quente: filmes nacionais, internacionais, documentários, curta e média metragens com abordagens sobre raça, classe, organização comunitária, etc. Isto, através das curadorias comunitárias nos bairros e das sessões de cinema”, explica.

Nas sessões do Cine do Povo são exibidos filmes nacionais de ficção, documentários nacionais, filmes internacionais e recentemente foi iniciada a própria produção audiovisual do cineclube, o que promete muita coisa boa por vir. A linha cinematográfica dos filmes exibidos tem como temas principais a brutalidade e violência praticada pela polícia, comédias, temáticas sobre organizações comunitárias, filmes Gangstar, cultura Hip Hop, resistência negra e curtas que seguem esta linha de contextualização. Outro destaque se dá aos filmes infantis que valorizam aspectos da cultura negra, como o clássico Kiriku.

Ao ser perguntado sobre a cultura brasileira mostrada nos filmes nacionais, Aganju foi certeiro.“O cinema nacional reproduz os valores da sociedade como um todo: racista, machista, homofóbico e fincado na lógica desigual do capitalismo. Nós lidamos com essa contradição, mas não batemos muito a cabeça com isso. Nosso objetivo não é ser crítico cinematográfico”, conta Aganju.

A autonomia cultural como base da resistência contra o fascismo do Estado e da mobilização pela luta dos direitos das minorias, o fato de um cineclube expandir sua ação para outros setores artísticos e culturais, que querendo ou não sempre estarão relacionados ao cinema, mas que a indústria cinematográfica só usa como cenário para vender mais e mais, é a prova de que estamos diante de uma raiz importante da luta popular. Esta raiz se multiplica de forma comunitária, mas nunca deixa de perder sua essência autônoma, dando espaço para outros criarem novas raízes, que juntas formarão um ciclo de resistência ao genocídio do jovem negro nos becos escuros deste país. Nas palavras de Aganju podemos verificar que o eixo tradicional das lutas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Sul do país, principalmente enquanto vemos um golpe ser dado contra a juventude no Congresso Nacional depois que a Lei de redução da maioridade foi aprovada, tem aliados fortes no nordeste e eles não esperaram por sindicatos ou movimentos pelegos para criar sua fonte de resistência à violência praticada pelo Estado, o exemplo é importante.

Outro exemplo a ser destacado na luta do Cine Comunitário do Povo é a juventude presente e atuante em sua formação e ação coletiva. São detalhes que em um futuro próximo renderão frutos revolucionários contra o sistema retrógrado e conservador que somos obrigados a nos submeter, a diferença é que em Cachoeira não há submissão, mas atividade constante, contínua e verdadeiramente atuante no cotidiano da periferia baiana.

“Atualmente o Cine Comunitário do Povo atua em cerca de 5 bairros periféricos da cidade. Nós nos organizamos a partir de uma metodologia de ação espontânea, através de uma ampla rede de articuladores comunitários, coordenação local nos bairros, simpatizantes e educadores comunitários. Efetuamos, com certa permanência, sessões de cinemas nas ruas e articulamos atividades culturais em localidades que só conhecem a intervenção policial violenta como política pública.”, conta Aganju.

Como na Jamaica, onde a independência do colonizador britânico foi regada à muita música, o reggae é a trilha sonora da resistência em Cachoeira, além do movimento Hip Hop, nascido nos bairros mais pobres dos Estados Unidos e expandido como ferramenta ativa contra a opressão em outros países. Muitos dos articuladores do Cine do Povo são Mcs, grafiteiros, b-boys e regueiros. Fred Aganju também destaca o movimento Hip Hop de Cruz das Almas, outro município baiano, além da banda de reggae Jamaicachoeira e o reggaeman J.Araujo, morador e co-fundador do Cine Comunitário do Povo.

A venda de camisetas do Cine do Povo tem sido uma forma de construir uma política financeira comunitária para o cineclube. Além disso a ideia é começar a vender DVDs dos filmes que são exibidos, até mesmo um Box que vai contar com dois filmes populares nas temáticas aqui já citadas e um filme sobre a história do Cine do Povo, será criado.

“A ideia é piratear mesmo e vender em uma perspectiva de fortalecer nossa política financeira comunitária. No início do ano de 2015 ganhamos um prêmio, com essa grana fizemos o I Encontro de Cineclubes Comunitários da Bahia, que já íamos fazer e também aparelhamos o cine com projetor, notebook, câmera audiovisual, tela e caixa de som. Antes nós pedíamos tudo emprestado.”, diz Aganju.

Blindados pela mídia local e sempre com a repressão policial como ameaça à comunidade, o Cine do Povo segue resistindo e dando exemplos de luta contra o genocídio do jovem pobre e negro das periferias baianas. De acordo com Aganju, o movimento cineclubista comunitário é boicotado pela mídia e pelo Estado, as ações se tornam invisíveis para o restante do público, contando apenas com sua comunicação comunitária, nas ruas, no boca a boca, na esquina, no bar ou na página do Facebook, o Cine do Povo se mantém alerta aos fascistas, multiplica cultura popular e desenvolve caminhos para a juventude combativa, tão ameaçada pelo sistema político brasileiro.

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