Cultura e Resistência

Cervejaria Molotov incendeia o Carnaval do Rio

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Com o lançamento da Bola 8 IPA, a autogestão do coletivo bate de frente com o monopólio cervejeiro na real festa do povo

 

Um coletivo de sete pessoas, cansado de ver o preço de sua bebida favorita subir e a qualidade cair, resolveu bater de frente com o monopólio da Ambev (empresa que tem o valor de mercado de  R$ 269,96 bilhões*, à frente da Ecopetrol e Petrobras, e mais de 20 rótulos no Brasil) e produzir sua própria cerveja. Após perceberem que tinham as condições necessárias para fazer a bebida artesanalmente, a Cervejaria Molotov pretende incendiar o Carnaval Carioca com a Bola 8, cerveja Pale (de alta fermentação) tipo Indian Pale Ale, com 7% de teor alcoólico e 8 tipos de malte em sua elaboração, que será distribuída nos blocos antioficiais do Rio.

A cervejaria que tem o nome de uma bomba utilizada pelo povo nas lutas sociais, surgiu com a ideia de emitir a resistência popular numa bebida que faz jus aos que não aceitam o monopólio massivo da indústria cervejeira do Brasil, que, segundo o coletivo, propaga a exploração em massa, as práticas de cartel e o preço abusivo em produtos sem qualidade. “De certa forma, é levar à frente o velho lema construir o mundo novo na casca do mundo antigo. Trata-se de uma ideia central ao pensamento anarquista mas, mais do que isso, é a marca da ação direta, de todos os povos em sublevação, de todas as pessoas que, insatisfeitas frente ao mundo à sua volta, resolvem se transformar em senhores de seu próprio destino e construir no aqui e agora a utopia à frente”, contaram os membros do coletivo em entrevista exclusiva à Revista Megafonia.

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A produção da bebida é feita nas cozinhas das casas dos integrantes do coletivo composto por pessoas da área de música, geografia, engenharia, arquitetura, antropologia e farmácia, e que estão se especializando na arte de fazer cervejas desde o segundo semestre do ano passado.  “Como se brinca no meio cervejeiro, nós não fazemos cerveja nós fazemos mosto – a junção mística de lúpulo, água e malte, que vai para o fermentador. Quem produz cerveja são as santas leveduras. Fica-se, portanto, meio à mercê delas e do estilo de cerveja que se pretende fazer. Atualmente, experimentamos receitas que variam entre 3 a 4 semanas, desde o preparo dos ingredientes até o copo”, explicam.

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Pronta para incendiar

Após uma série de testes, o coletivo chegou à conclusão de que a cerveja está pronta para ser distribuída ao público. E segundo eles, lançar a primeira bebida da cervejaria no Carnaval faz todo sentido, já que nessa época o consumo de cerveja aumenta e o monopólio dos rótulos de cervejas distribuídas ao público impera. “O Carnaval é o exemplo claro da guerra de mundos que marca o espírito da atualidade. O Rio vem sofrendo um processo constante de mercantilização e regulação do Carnaval. A prefeitura rogou o direito de decidir quais blocos podem ou não existir – em nome de uma falsa garantia de ordem para a população – e vendeu a festa do povo para o monopólio da Antarctica, enquanto patrocinadora. Há repressão forte a vendedores ambulantes, que ficam obrigados a conseguir licenças e vender exclusivamente produtos autorizados – leia-se, dos patrocinadores”, ressaltam.

Para o coletivo da Cervejaria Molotov, o monopólio da Ambev, que tem a maioria dos rótulos de cerveja no Brasil, e a regulamentação do Carnaval de Rua, por parte da prefeitura do Rio, vão de contramão ao que a festa popular representa para a cultura brasileira. “Veja bem, esse jogo entre Estado e grandes empresas pretende transformar radicalmente o Carnaval, apagar seu caráter libertário de festa do povo. O Carnaval de rua no Rio tem sido há tempos o espaço de inversão das regras cotidianas, da fantasia e dos mascarados, da quebra de tabus e desrespeito às hierarquias, do encontro nas ruas e convivência nos bairros; uma festa por excelência, onde todos são partícipes na produção de situações vivas e reais que trazem um lampejo de liberdade frente ao cotidiano velho e morto de solidão e trabalho já velho conhecido dos habitantes das grandes metrópoles. E frente à mercantilização, regulação, esquadrinhamento e ordenamento de cima para baixo, têm havido resistência. Cada vez mais, blocos assumem a posição de não pedir autorização à prefeitura para exercer seu direito à alegria, e saem como piratas desobedientes, fora do circuito oficial montado para o espetáculo turístico”, expõem.

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Sonhar junto virou realidade

O lançamento da Bola 8, segundo os cervejeiros, representa uma forma de resistir e mostrar ao público que não é necessário aceitar os produtos que a indústria impõe para consumo. E com essa ação, pretender manifestar o lado B da maior festa popular no país, com cervejas especiais preparadas de forma coletiva.  “Se não temos força ainda para barrar os axiomas da tríade espetáculo Ambev/estado que forçam o monopólio do espaço público, que procuram explorar a produção de arte, cultura descentralizada e anônima do povo para lucrar, que ao menos consigamos garantir a alternativa. Desenham-se dois carnavais de rua no Rio: de um lado, o da mesmice dos carros de som, da regulamentação de hora para a festa, das fantasias compradas prontas, do monopólio da bebida ruim; do outro, o carnaval antioficial, a festa sem regras, da autogestão dos horários e trajetos, dos músicos que tocam ao lado dos foliões, sem nem mesmo corda para separá-los, da música pirata, da comida pirata e da bebida pirata”, propõem.

Com isso, o coletivo procura, através da Cervejaria Molotov vetar as imposições do monopólio e estado direcionadas ao modo de viver das pessoas. “Se os empresários da Ambev sonham com um Carnaval da ‘quadradice’, no qual eles têm a exclusividade do fornecimento – todos tomando o mesmo mijo que eles teimam em chamar de cerveja – nosso sonho é diferente. Já imaginou chegar num bloco e encontrar uma dezena de isopores, cada um com as cervejas mais inusitadas e deliciosas que você já provou, produzidas por diversos coletivos, com competições amigáveis sobre que lugar produz a melhor cerveja? Passar o Carnaval descobrindo e se embriagando de uma infinidade de estilos distintos de cerveja? Como diria o velho Raul, cremos firmemente que sonho que sonha só, é só um sonho, e sonho que se sonha junto é realidade”.

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Autogestão e cooperação

E a resistência da cervejaria vai além do nome. “Bom, ter o nome de molotov carrega uma responsabilidade da resistência. Trabalhar em autogestão é, em grosso modo, construir um regime de trabalho onde todos sejam responsáveis pelas decisões e participem de forma igualitária na construção da cooperativa. Teimam em dizer que vivemos num mundo livre… como é possível acreditar nisto quando uma parte enorme de nossa vida é gasta sob um regime de trabalho onde meramente recebemos e executamos ordens sem podermos questionar? Onde não podemos nem mesmo opinar sobre como gostaríamos da organização do espaço, ou qual a forma justa de divisão dos lucros. Tentamos resistir a isto: decidimos nosso rumo em conjunto, procurando consenso entre os participantes sobre divisão de tarefas a cumprir, alocação de recursos, divisão do retorno da produção etc”, contam.

A maioria das embalagens da Bola 8 tem 600 ml. E os cervejeiros, para a sorte dos que resistem, pretendem não parar por aí. “Infelizmente, nossa produção ainda é bastante exígua para atender toda a demanda; logo após o Carnaval, começaremos um plano de aumentar a produção e estudaremos a melhor forma de distribuição em eventos ou diretamente ao consumidor. Convidamos a todxs a ficarem ligadxs”.

*Valor segundo dados divulgados em abril de 2014

Fotos: Divulgação/Cervejaria Molotov

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